quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Paisagens de espírito, reflexos da alma: o impressionismo germânico e o simbolismo

Quando falamos em pintura impressionista, é inevitável: pensamos de imediato nos franceses, já que é na França que esse movimento artístico teve origem oficialmente, em 1874. Só que o Impressionismo correu mundo. Impactou de tal forma a arte no Ocidente, que vários outros países da Europa sofreram sua influência e também viram nascer grandes artistas adeptos da pintura ao ar livre, das pinceladas soltas e, principalmente, da captura dos estados fugidios da luz e da natureza.

Os países germânicos não ficaram de fora, e descobri, em uma visita ao Museu Belvedere, em Viena, maravilhosas paisagens de pintores austríacos e alemães com a técnica impressionista. Diferentemente dos impressionistas franceses, em vez de captar os contrastes de luz e sombra na natureza, muitos dos germânicos optaram por criar obras mais intimistas, preferindo capturar e reproduzir atmosferas sugestivas de estados de espírito. Não por acaso, alguns desses artistas também se alinharam à Secessão de Viena, escola que deu origem ao art nouveau austríaco, e criaram belas obras de caráter simbolista, etéreas e misteriosas em suas temáticas. Vamos conhecer algumas!

Importante: a descrição ao lado de cada obra do Belvedere não fornecia suas dimensões, motivo pelo qual algumas das legendas das obras a seguir não possuem essa informação. As obras que a possuem constam no catálogo do museu.

O vienense Emil Jakob Schindler (1842-92) criou paisagens com uma luz misteriosa e a atmosfera que precede as tempestades, remetendo, inevitavelmente, às melancólicas paisagens do romântico alemão Caspar David Friedrich (1774-1840).

Emil Jakob Schindler - 'Atmosfera de fevereiro (Véspera de primavera nos bosques de Viena)'
1884 - óleo s/ linho - 120 X 96 cm - foto: catálogo do Palácio Belvedere 

A pintura abaixo, também de Schindler, é neoclássica no tema, mas não na técnica. Compare com outra tela que também está no Belvedere, uma pintura neoclássica de um pintor eslovaco do século XVIII que nasceu em Bratislava e faleceu em Viena muito jovem, com apenas 30 anos: Carl Philipp Schallhas (1766-96).

Emil J. Schindler - 'Paz' (1891) - óleo s/ tela - foto: Simone Catto

Carl Philipp Schallhas - 'Paisagem Árcade' (1796) - óleo s/ tela - foto: Simone Catto 

Schindler era amigo de outro pintor austríaco que, após criar obras no estilo impressionista no início da carreira, aderiu posteriormente à Secessão de Viena ao lado de Gustav Klimt, produzindo pinturas de forte caráter simbolista. Seu nome era Carl Moll (1861-1945). Note essa polaridade de estilos nas duas pinturas a seguir. Nem parece que foram criadas pelo mesmo artista!

Carl Moll - 'O Naschmarket em Viena' (1894) - óleo s/ linho - 86 X 119 cm - foto: Simone Catto

Carl Moll - 'Crepúsculo' (1900) - óleo s/ linho - 80 X 84,5 cm - foto: catálogo do Palácio Belvedere

A seguir, temos obras de duas pintoras impressionistas vienenses de talento excepcional: Tina Blau-Lang (1845-1916), que criou paisagens encantadoras, e sua contemporânea Olga Wisinger-Florian (1844-1926), que lhe sobreviveu dez anos. Tina era mais contida nos pincéis. Já Olga usava um cromatismo mais exuberante para retratar trilhas nos bosques, campos floridos e outras paisagens do tipo que, pelo menos para mim, dá vontade de entrar dentro do quadro.

Tina Blau-Lang - 'Primavera no Prater' (1882) - óleo s/ linho - 214 X 291 cm - foto: catálogo do Palácio Belvedere

Olga Wisinger-Florian - 'Papoulas em flor' (1895-1900) - óleo s/ cartão - 70 X 98 cm - foto: catálogo do Palácio Belvedere

A pintura abaixo, do impressionista austríaco Theodor com Hörmann (1840-95), possui grande vivacidade, apesar das dimensões reduzidas.

Theodor von Hörmann - 'Campo de sanfenos perto de Znaim' (1893) - óleo s/ linho s/ madeira - 22 X 48 cm
Foto: catálogo do Palácio Belvedere

A obra a seguir, do pintor impressionista alemão Max Liebermann (1847-1935), não possui a exuberância paisagística dos colegas austríacos, mas é uma cena aprazível de singela beleza.

Max Liebermann - 'Os jardins do hospital em Edam' (1904) - óleo s/ linho - 70,5 X 88,5 cm
Foto: catálogo do Palácio Belvedere

Abaixo temos um encantador exemplo do impressionismo alemão numa obra de Fritz von Uhde (1848-1911). Vale ressaltar que, embora a técnica seja impressionista, não se trata de uma pintura ao ar livre, conforme era usual no movimento, mas da representação de um ambiente interno. Uhde retratou as filhas numa varanda com a interessante perspectiva de quem observa a cena a partir de outro cômodo da casa. É como se portas fossem se abrindo à sua frente e seus olhos fossem sendo guiados pelos ambientes em direção a um ponto de fuga até se deterem nos rostos das moças. Essa pintura chamou minha atenção de imediato, no museu, tanto por suas cores vívidas quanto pelo cálido flagrante da intimidade e do clima de aconchego do interior da casa. Imagino que se trate da residência do próprio artista.

Fritz von Uhde - 'As filhas do artista na varanda' (1901) - óleo s/ tela - foto: Simone Catto

Os artistas simbolistas rebelaram-se contra a representação pura e simples da realidade na arte e priorizaram seus sentimentos e instintos, contrapondo as forças antagônicas de eros e tânatos, ou seja, as pulsões de vida e morte. Esses artistas simplificaram cores, traços e planos, produzindo pinturas de aspecto mais chapado e de atmosfera mais onírica. O principal representante do simbolismo vienense é Gustav Klimt, que mereceu uma matéria à parte neste blog (veja aqui).

O pintor e gravador Max Kurzweil (1867-1916) ajudou a fundar, entre outros artistas e arquitetos, a Secessão de Viena ao lado de Klimt. Ele criou uma série de retratos, dentre os quais o de Therese Bloch-Bauer, judia da alta sociedade vienense que era irmã de Adele Bloch-Bauer, uma das grandes musas de Klimt. Therese era também mãe de Maria Altman, a qual posteriormente processou o governo austríaco para reaver o mais famoso retrato de sua tia Adele criado por Klimt, como reparação à espoliação que sua família havia sofrido pelos nazistas durante a Segunda Guerra. Veja a história aqui.

Max Kurzweil - 'Retrato de Therese Bloch-Bauer' (c.1907) - óleo s/ tela - foto: Simone Catto

O belga Fernand Edmond Jean Marie Knopff (1858-1921) e o alemão Max Klinger (1857-1920) eram legítimos representantes da escola simbolista, como atestam as obras a seguir, também em exibição no Belvedere.

Fernand Knopff - 'Águas calmas - o lago de Menil' (1894) - óleo s/ tela - foto: Simone Catto

Fernando Knopff - 'Meia-figura de ninfa (Vivien)' (1896)
gesso pintado em base de madeira dourada - altura: 99 cm
Foto: Simone Catto

Max Klinger - 'O julgamento de Paris' (1885-87) - óleo s/ tela com moldura de madeira e gesso - foto: Simone Catto

O vienense Hans Makart (1840-84), que fez grande sucesso à sua época, não era impressionista e nem simbolista: era um pintor de cenas históricas e mitológicas e criador de belas obras de arte decorativa, tendo influenciado o trabalho de Gustav Klimt e de vários outros artistas do art nouveau, notadamente nas representações de sensuais mulheres e ninfas da mitologia, tão celebradas na arte fin-de-siècle. Os painéis a seguir ocupam uma parede inteira de um salão do Palácio Belvedere.

Hans Makart - 'Os cinco sentidos: visão, audição, tato, paladar, olfato' (1872-79) - óleo s/ tela - foto: Simone Catto

Foto: Simone Catto

O fato é que tanto o impressionismo quanto o simbolismo produzidos fora da França nos deixaram obras de grande beleza que merecem ser admiradas pessoalmente. Não deixe de visitar o Palácio Belvedere se você for a Viena!

PALÁCIO BELVEDERE - Eugen-Straße 27, 1030 Viena. Consulte tarifas em https://www.belvedere.at. Abre de segunda a quinta das 9h às 18h, e sextas das 9h às 21h.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Pintura de Leonardo da Vinci é leiloada por 450 milhões de dólares

Fonte: BBC Londres

Uma pintura a óleo de Jesus Cristo de 500 anos, creditada a Leonardo da Vinci, foi vendida em Nova York pelo preço recorde de 450 milhões de dólares (1,5 bilhão de reais). 

A pintura Salvator Mundi, atribuída a Leonardo da Vinci. Será?

Conhecida como Salvator Mundi (Salvador do Mundo), a pintura atingiu o maior valor num leilão de arte até hoje, despertando reações de euforia e muitos aplausos no salão lotado da Christie's. Leonardo da Vinci morreu em 1519 e existem menos de 20 pinturas de sua autoria no mundo. Salvator Mundi, a qual se acredita ter sido criada após 1505, é possivelmente o único trabalho do mestre a pertencer a proprietários particulares. Os lances começaram em 100 milhões de dólares e o lance final foi de 400 milhões de dólares, com as taxas comissionais elevando o valor total para mais de US$ 450 milhões, ou seja, cerca de 1,5 bilhão de reais. O comprador, que permaneceu no anonimato, ficou envolvido numa disputa telefônica por quase vinte minutos. A título de comparação, o recorde anterior num leilão de arte foi menos da metade desse valor, quase 180 milhões de dólares, pagos pela obra Mulheres de Argel, de Pablo Picasso. O valor desembolsado por Salvator Mundi supera inclusive o de obras vendidas em eventos privados, como os 300 milhões de dólares (981 milhões de reais) pagos pelo investidor Kenneth Griffin por Interchange, de Willem de Kooning, e um valor semelhante desembolsado por um emir do Catar por Nafea Faa Ipoipo (Quando você vai se casar?), de Paul Gauguin.


A pintura de Leonardo mostra Cristo com uma das mãos erguida e a outra portando uma esfera de vidro. Em 1948, foi vendida num leilão em Londres por meras 45 libras. À época, acreditava-se que a obra fosse de autoria de um seguidor de Leonardo e não um trabalho do próprio mestre. Aparentemente, a pintura pertenceu à coleção do rei Carlos I da Inglaterra, por volta dos anos 1600, e depois se perdeu, sendo "redescoberta" em 2005.  

Análise de Will Gompetz, editor de arte da BBC

"Quatrocentos e cinquenta milhões de dólares por Salvator Mundi é uma cifra impressionante devido a sua condição e ao questionamento de sua autenticidade. Isso mostra que, em última instância, arte se resume a crença. E na noite do leilão, havia participantes suficientes plenamente convencidos de que a obra era mesmo de Leonardo da Vinci para levar o preço a alturas tão estratosféricas. E no entanto, o novo comprador é desconhecido. Especulações não faltarão. A esse respeito, arrisco dizer que o recém-aberto Louvre de Abu Dhabi terá um espaço à espera de Leonardo quando chegar ao fim o acordo de dez anos, com os museus franceses, para empréstimo de obras. Seja qual for a conclusão, é preciso tirar o chapéu para a Christie’s por sua magnífica lição na arte de vender arte. Em um movimento ousado, sem qualquer resquício de ironia, a pintura foi comercializada em sua Noite de Venda de Arte Contemporânea e do Pós-Guerra, ao lado de Jean-Michel Basquiat e Andy Warhol. Por que não uma Venda de Velhos Mestres? Porque não é onde o dinheiro graúdo está. Hoje as grandes somas entram onde os Pollocks e Twonblys estão no páreo e saem quando entram os Reynolds e Winterhalters."


Dr. Tim Hunter, um expert em arte dos velhos mestres e do século XIX, contou à BBC que a pintura é "a mais importante descoberta do século XXI." "Ela quebra completamente o recorde da última venda de velhos mestres, os Girassóis de Van Gogh, em 1988. Recordes são quebrados de tempos em tempos, mas não dessa maneira. Da Vinci criou menos de 20 pinturas a óleo e muitas são inacabadas, de forma que são incrivelmente raras e nós amamos isso na arte." Antes do leilão, a pintura pertencia ao bilionário russo e colecionador Dmitry E. Rybolovlev, que a teria adquirido numa venda particular em maio de 2013, por 127,5 milhões de dólares.

Euforia e tensão no leilão da Christie's - Foto: BBC

Seria autêntica?

A pintura passou por grandes cirurgias estéticas – sua base de nogueira foi descrita como um "túnel de vermes", em algum momento parece ter-se partido em duas e os esforços para restaurá-la geraram abrasões. Vincent Dowd, correspondente de arte da BBC, relatou que mesmo agora a atribuição de autoria a Leonardo não é universalmente aceita. Um crítico descreveu a superfície da pintura como "inerte, envernizada, espalhafatosa, esfregada e repintada tantas vezes que parece simultaneamente nova e velha."

Especulações sobre o comprador

A Christie's, porém, insiste que a pintura é autêntica e classificou-a como "a maior redescoberta artística do século XX." Georgina Adam, especialista no mercado de arte, relatou à BBC que o preço da obra é "alimentado pela enorme quantidade de dinheiro que os bilionários possuem." "Essa é a última pintura de Leonardo que se pode comprar. Não é como uma reserva de valor, é o derradeiro troféu – apenas uma pessoa no mundo pode possuí-lo. Se você pensar na riqueza de alguns bilionários - a de Bill Gates vale US$ 87 bilhões e não estou dizendo que seja ele, mas meio bilhão  não seria uma parcela muito grande de sua renda, por exemplo." A casa de leilões não revelou quem comprou a pintura, mas Hunter especula que poderia ser um comprador da Ásia ou que ela poderia mesmo estar a caminho do novo Louvre em Abu Dhabi. "É o tipo de pintura que você pode imaginar como uma superestrela numa coleção particular e, como colecionadores bilionários gostam de criar seus próprios museus, poderia ser uma boa obra para eles", afirma Hunter. Adam também acha que a peça pode ter ido para o mercado asiático. "Não sabemos quem a comprou; estive no Louvre em Abu Dhabi e perguntei-me se alguém do Golfo [Pérsico] poderia ser o responsável pela compra. As pessoas logo pensam no Extremo Oriente e, antes de ser colocada à venda, a pintura foi levada a Hong Kong a fim de ser exibida a possíveis compradores, de forma que essa hipótese não é improvável". 

Em minha modesta opinião, acredito que uma obra dessa envergadura dificilmente conseguirá ficar escondida por muito tempo, mesmo que tenha sido adquirida por um colecionador particular, até porque - creio - a vaidade falará mais alto e o feliz proprietário acabará "trombeteando" a novidade por aí. É só uma questão de tempo.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Palácio Belvedere, emoções barrocas entregues à luxúria de Klimt.

Quando cheguei a Viena, em uma viagem que fiz no final do verão europeu, o primeiro local que quis visitar foi o Palácio Belvedere, magnífica construção barroca que era a antiga residência de verão do príncipe Eugênio de Savoia (1663–1736), que não era austríaco, mas francês. Construído no século XVIII, entre 1712 e 1723, o Belvedere consiste em dois prédios criados pelo mais celebrado arquiteto barroco do período, Johann Lucas von Hildebrandt (1668-1745), integrado a um belo jardim ao estilo francês, fazendo jus às origens do príncipe. É considerado patrimônio mundial da Unesco e parada obrigatória para todo mundo que visita a cidade.

Jardim francês do Palácio Belvedere - Foto: Simone Catto
 
Vista do palácio - Foto: Simone Catto

A pintura no teto, os lustres de cristal e a profusão de mármores e dourados hipnotizam
o visitante - Foto: Selma Catto

Dentre as dezenas de ambientes do palácio, a capela chamou minha atenção de maneira especial. Exemplo típico da arquitetura de Hildebrandt, foi encomendada pessoalmente pelo príncipe em 1720 e, ao lado do Hall de Mármore, é o único ambiente a se estender por dois andares. A pintura do altar, obra de um artista barroco napolitano chamado Francesco Solimena (1657-1747), mostra a Ressurreição de Cristo e foi restaurada em 2001 com o apoio do Clube Zonta de Viena, uma entidade internacional que apoia mulheres profissionais, e doações particulares.

O magnífico altar barroco, com pintura do mestre napolitano Francesco Solimena
Foto: Selma Catto

A galeria que constitui o segundo andar da capela - Foto: Selma Catto

Além de possuir dependências belíssimas abertas a visitação, o palácio abriga um museu que reúne a maior coleção de pinturas de Gustav Klimt, principal ícone do art nouveau austríaco, da virada do século XIX para o século XX. Dentre as 24 pinturas do mestre, incluem-se duas obras-primas de seu período dourado, "O beijo (Casal apaixonado)" e "Judith", além de retratos, paisagens e representações alegóricas. Mas não é só de Klimt que se constitui o fabuloso acervo artístico do príncipe. É no Belvedere que está a maior coleção de arte austríaca do país a partir da Idade Média, passando pelos estilos Biedermeier e romântico, bem como o expressionismo, com obras de Egon Schiele e Oskar Kokoschka, até artistas dos dias de hoje. Estão lá também obras de mestres franceses como Monet, Renoir e Manet, dentre outros.

Ao visitar o Belvedere, fiquei tão fascinada com as obras que encontrei que tirei dezenas e dezenas de fotos. Por isso, mais do que escrever, acho melhor compartilhar com você algumas das imagens que capturei por lá. E neste post, nada mais justo do que começar mostrando alguns trabalhos de Gustav Klimt, o artista mais famoso e festejado do museu e de toda a Áustria.

Nascido em 1862, Klimt dominou o cenário artístico de Viena entre 1900 até sua morte, em 1918, pouco antes da Primeira Guerra Mundial. Filho de um humilde gravador, passou dificuldades na infância, mas as coisas começaram a melhorar quando, em 1882, ele abriu um ateliê com o irmão Ernst, igualmente talentoso, e passou a pintar murais para prédios públicos. Afastando-se cada vez mais daquilo que denominava "opressão do classicismo", Klimt e outros notáveis colegas das artes visuais criaram a Secessão, em 1897, estabelecendo as bases do estilo art nouveau vienense.

Importante: a descrição ao lado de cada obra do Belvedere não fornecia suas dimensões, motivo pelo qual algumas das legendas das obras a seguir não possuem essa informação. As obras que a possuem constam em um catálogo que adquiri no museu.

A obra abaixo, ainda criada nos moldes clássicos, transmite paz e mistério. Apesar de não pertencer à fase inovadora do artista, denota grande rigor e maestria técnica.  

Gustav Klimt - 'Retrato de mulher' (c. 1893) - óleo s/ tela
Foto: Simone Catto

É curioso observar que, ao criar a pintura a seguir, Klimt já havia se aventurado na fase dourada dos retratos, mas optou aqui pelo uso de massas de profundos tons escuros interrompidas somente pelos rostos luminosos da mulher e das crianças. A provável intenção do artista, com essas tonalidades sombrias, foi criar uma tensão dramática reforçada pelos altos contrastes de luz e sombra para uma temática que julgou incompatível com os arroubos dourados e cromáticos que o tornaram conhecido. 

Gustav Klimt - 'Família' (1909-10) - óleo s/ tela - Foto: Simone Catto
 
Gustav Klimt - 'Avenida para o palácio Kammer' (1912) - óleo s/ tela - 110 X 110 cm - Foto: Simone Catto

Em 1905, já desencantado com os ideais originais do grupo que ajudou a fundar, Klimt iniciou a fase em que produziu suas obras mais célebres, denominada fase dourada, fortemente influenciado pela arte japonesa e por afrescos bizantinos e mosaicos que vira em igrejas de Ravena, Itália. Temos, então, uma profusão de dourados, prateados e cores intensas distribuídos por fragmentos que se integram em padrões vibrantes, como se fossem luxuriantes colchas de retalhos. É nessa fase que elementos simbolistas se manifestam mais intensamente, ao lado de uma alta carga de erotismo, culminando numa pintura que se afasta da realidade para se aproximar do oculto e do espiritual. 

Note a voltagem erótica da bela "Judith", abaixo, que exibe uma seminudez contrastante com luxuosos ornamentos e a expressão facial de uma mulher que, definitivamente, não está em vias de rezar a "Ave Maria"...  

Gustav Klimt - 'Judith' (1901) - óleo s/ tela - 84 X 42 cm - Foto: Simone Catto

A obra abaixo, "O beijo", é uma das mais conhecidas do artista, ao lado do "Retrato de Adele Bloch-Bauer" (1907), que já pertenceu ao Palácio Belvedere e hoje está nos Estados Unidos após um longo processo judicial contra o governo da Áustria movido pela sobrinha da modelo, Maria Altmann (1916-2011), como reparação à espoliação sofrida por sua família pelos nazistas. Saiba mais aqui.

Gustav Klimt - 'O beijo (Casal apaixonado)' (1907-8) - óleo, prata e dourado s/ linho - 180 X 180 cm
Foto: Selma Catto

Klimt foi muito requisitado para fazer retratos de mulheres da sociedade que posaram com belos vestidos e algumas com decotes provocantes. Sedutor contumaz, o artista não raro tinha seu nome associado a diversas amantes e escândalos extraconjugais. Em 1900, chegou a ser indiciado sob acusação de pornografia e perversão, devido à ênfase que conferia à sexualidade em seus trabalhos. Eróticas ou não, é inegável que suas obras foram totalmente inovadoras em sua técnica, beleza e exuberância, criando um estilo pessoal e inconfundível. Klimt é daqueles artistas que reconhecemos de imediato ao "batermos o olho" em muitos de seus trabalhos. Sim, a Áustria tem todos os motivos para se orgulhar de seu maior ícone das artes.

Gustav klimt - 'Sonja Knips' (1898) - óleo s/ linho - 141 X 141 cm - Foto: catálogo do Palácio Belvedere

Gustav Klimt - 'Fritza Riedler' (1906) - óleo s/ tela - 152 X 134 cm - Foto: Simone Catto

Gustav Klimt - 'Amalie Auckerkandl' (1917-18) - óleo s/ tela (inacabado) - Foto: Simone Catto


Gustav Klimt - 'Adão e Eva' (1917-18) - óleo s/ linho
(inacabado) - 173 X 60 cm - Foto: Simone Catto

Esta é apenas uma ínfima - e põe "ínfima" nisso! - amostra do que você pode encontrar no palácio. Vale a pena reservar uma manhã inteira para conhecer o Belvedere com calma, apreciar as obras de Gustav Klimt e tomar um café em seus belos jardins! Anote: PALÁCIO BELVEDERE - Eugen-Straße 27, 1030 Viena. Consulte tarifas em https://www.belvedere.at. Abre de segunda a quinta das 9h às 18h, e sextas das 9h às 21h. 

domingo, 12 de novembro de 2017

Castelo Restormel, mais um motivo de orgulho para os ingleses e de inveja para nós.


Se existe um povo que sabe preservar seu patrimônio histórico, são os ingleses. Apesar de a Inglaterra ser um país relativamente pequeno, é admirável a quantidade de monumentos arqueológicos e construções históricas que consegue restaurar e/ou conservar e oferecer para o deleite de quem quiser ou puder visitá-los. Quando lá estive numa viagem de estudos, tive o privilégio de visitar as ruínas romanas de Bath, o inigualável tesouro arqueológico celta de Stonehenge, as cidades medievais de Oxford e Canterbury, sem falar, naturalmente, de todo o acervo histórico e artístico de Londres. O fato é que os ingleses criaram legislações específicas com regras estritas para classificar e preservar seu inestimável patrimônio e, pelo que tudo indica, elas funcionam muito bem, obrigado. Prova disso é o castelo medieval de Restormel, o qual ainda não tive a oportunidade de visitar, mas tive o prazer de conhecer por meio do site Abandoned Spaces, que descortina maravilhas arquitetônicas abandonadas ao redor do mundo. Tudo bem que o castelo não está propriamente abandonado, pois é um sítio arqueológico muito bem cuidado pelo governo inglês e tornou-se atração turística, mas se trata de uma construção que já teve fins utilitários e, obviamente, há séculos está desabitada.

O castelo erigido no topo da colina, conforme era usual na Idade Média - Foto: Visit Cornwall

A entrada do castelo Restormel - Foto: Abandoned Spaces

Construído por volta do ano 1100, após a conquista normanda da Inglaterra, o castelo Restormel fica às margens do rio Fowey, na Cornualha, e possui um design circular perfeito. Está entre os quatro principais castelos normandos da região e apresenta a típica estrutura medieval na qual o castelo fica encimado numa colina e é circundado por uma área aberta situada no interior de uma grande muralha.

Vista aérea do castelo - Foto: English Heritage

Fundado pelo xerife da Cornualha, Baldwin Fitz Turstin, o castelo Restormel é um dos mais antigos e bem preservados do país e passou por muitas mãos. Construído no meio de um grande parque povoado por cervos, foi concebido originalmente como um alojamento de caça, mas posteriormente tornou-se também uma fortificação. O principal responsável por seu projeto arquitetônico foi o barão feudal Robert de Cardinham, que construiu a muralha fortificada em torno do castelo e o portal inteiramente de pedras. Após a família Cardinham, o proprietário do castelo até 1264 foi o genro do barão, Thomas de Tracey.

No reinado de Henrique III, o castelo caiu nas mãos de um conde chamado Simon de Montfort e, em 1270, foi ofertado ao irmão do monarca, Ricardo da Cornualha. Após a morte deste, seu filho construiu os aposentos interiores e fez do castelo sua principal sede administrativa. Em 1337, o castelo passou a pertencer ao duque da Cornualha e constituía uma das 17 propriedades do condado. Gradualmente, a construção foi se deteriorando até ser restaurada pelo Príncipe Negro, alcunha de Eduardo de Woodstock (1333-1376), filho mais velho de Eduardo III que participou da Guerra dos Cem Anos. Após a morte do príncipe, o castelo começou a se deteriorar novamente e, após várias restaurações, até hoje pertence ao ducado da Cornualha.

O interior do castelo - Foto: Abandoned Spaces

Detalhe da entrada, vista do interior do castelo - Foto: Abandoned Spaces

Atualmente, o castelo Restormel é classificado como uma construção grau II*, isto é, uma construção de interesse especial que merece todos os esforços para preservá-la (veja nota explicativa no rodapé). Sua muralha tem 38 metros de comprimento e é cercada por um fosso de 15 metros. A construção inclui uma capela situada numa torre quadrada erigida no século XIII, utilizada como depósito de armas durante a Guerra Civil Inglesa.

Foto: Visit Cornwall

Na década de 1980, o castelo foi também listado como um Scheduled Monument, nomenclatura criada pelos britânicos para designar os monumentos arqueológicos que precisam ser preservados para as futuras gerações. A construção é hoje mantida pela English Heritage, organização pública que gere a National Heritage Collection e inclui mais de 400 edifícios, monumentos e locais históricos da Inglaterra.

Foto: Abandoned Spaces

O fato é que o castelo Restormel oferece uma vista fantástica sobre seu entorno e fica repleto de flores e plantas o ano todo. Além disso, vários eventos são realizados no local, revivendo a história e atraindo turistas que querem apreciar suas ruínas milenares ou fazer um piquenique. Aliás, devo confessar que morro de inveja dos países onde seus habitantes podem fazer piqueniques em paz!

Nota - Veja a classificação especial que a Inglaterra e o País de Gales criaram para suas construções históricas:
-Grau I: construções de interesse excepcional;
-Grau II*: construções particularmente importantes, de interesse mais do que especial;
-Grau II: construções de interesse especial, garantindo todos os esforços para preservá-las. É nesta categoria que o castelo Restormel se enquadra.

É raro os brasileiros se interessarem em visitar a região da Cornualha, mas, para quem tiver desejo ou possibilidade para tanto, segue o endereço do CASTELO RESTORMEL: Nr Restormel Road, Lostwithiel, Cornwall, PL22 0EE. Abre de abril a outubro, em horários a ser divulgados, e a tarifa é de £4,30. Se você for, me convida para um piquenique! 

domingo, 5 de novembro de 2017

Restaurante Pasta Nostra, um italiano sempre disponível.

Sempre que eu passava pela esquina da Rua Áurea com a Rua Joaquim Távora, na Vila Mariana, notava aquele restaurante italiano de aspecto simpático, com grandes paredes envidraçadas e instalado num sobrado antigo, típico do bairro. Num domingo, resolvi almoçar por lá. Trata-se do Pasta Nostra, local despretensioso que atende um público formado por famílias, casais e grupos de amigos que devem morar na região. É ideal para os almoços tardios do fim de semana, pois, ao contrário de tantas outras casas, o restaurante nunca fecha entre o almoço e o jantar.

A fachada do restaurante é convidativa - Foto: ChefsBlog

Os ambientes da frente são bem iluminados e arejados, principalmente o pequeno espaço que tem uma parede envidraçada. Um outro ponto positivo é que o restaurante não é ruidoso e dá para todo mundo conversar sem precisar se "esgoelar", como diria minha mãe (rs).

O espaço com parede envidraçada, ao fundo, é o mais agradável de todos - Foto: Simone Catto

Os ambientes da frente são claros e arejados - Foto: Simone Catto

De cara, o pedido da mesa foi um vinho branco, pois o dia estava quente e ensolarado. No calor da conversa acabei não anotando o nome do vinho, que me perdoe o leitor, mas era um branco frutado que combinou bem com o prato que escolhi. O cardápio oferece uma grande variedade de massas e também carnes e peixes, mas, como na ocasião havia um festival de risotos, resolvi experimentar. Pedi um risoto de camarões e frutos do mar, porém, ao degustar o risoto de queijo Brie e peras, confesso que me arrependi de não ter feito essa opção, porque achei-a bem mais saborosa.

Risoto de camarão e frutos do mar - Foto: Simone Catto

O risoto de queijo Brie e pera estava tentador! - Foto: Simone Catto

O outro pedido da mesa foi o filetto de pesce al sicilicano, um filé de peixe grelhado ao molho de vinho branco, alcaparras e uva Itália que vem acompanhado de arroz com passas. Esse eu não experimentei, mas os comentários de quem comeu foram para lá de satisfatórios.

O filetto de pesce al siciliano estava com uma cara ótima! - Foto: Simone Catto

A sobremesa, compartilhada, constava no cardápio como "Semi Freddo al Frutti Rossi e Secca" (sic). Como tenho boas noções da língua italiana, a primeira coisa que me saltou aos olhos foram os erros de grafia: o correto seria "Semifreddo ai Frutti Rossi e Secchi". A casa deveria tomar cuidado com seu cardápio, até porque se posiciona como "restaurante italiano" e esse tipo de erro denota falta de cuidado com os detalhes, além de depor contra sua autenticidade. Sem falar, naturalmente, que a Vila Mariana está repleta de descendentes de italianos, como eu, e deslizes desse tipo não pegam bem. Voltando à sobremesa... o "semifreddo" consistia num sorvete (segundo o cardápio, italiano) com calda de frutas vermelhas e farofa de frutas secas. Estava OK como sorvete, mas... não era um semifreddo. Na realidade, o semifreddo italiano possui massa mais dura, consistente. Dá até para cortar com faca. Em vez de denominar a sobremesa como semifreddo, portanto, seria mais adequado chamá-la simplesmente de "Gelato ai Frutti Rossi e Secchi". Ecco.

O "semifreddo" que não era "semifreddo" nem "semi freddo": era "gelato" - Foto: Simone Catto

Finalizamos a refeição com um café expresso e, antes de sair, eu quis conhecer o salão ao lado, que já estava vazio. Nada de errado, exceto pelas indigestas pinturas na parede, paisagens venezianas de cores berrantes e gosto duvidoso que poderiam tranquilamente ser substituídas por plantas. Mas, enfim, isso é fácil de resolver.

Pinturas indigestas não combinam com o restaurante... ai, ai...   - Foto: Simone Catto

Para quem quiser conferir, o PASTA NOSTRA fica na Rua Joaquim Távora, 1355 - Vila Mariana – São Paulo. Tels: (11) 5084- 0289 | (11) 2373-1910. Abre de segunda a domingo, das 11h30 às 23h. Custo médio por pessoa: R$ 100.

domingo, 29 de outubro de 2017

Tudo vale a pena se a alma está em Viena.

Muitos brasileiros que viajam à Europa retornam com um misto de sentimentos, sobretudo quando visitam algum país mais desenvolvido que a média do continente. Por um lado, ficam felizes por terem tido a oportunidade de apreciar uma bela civilização, o que inclui respeito às pessoas, à história, à arte e à natureza. Por outro, vivenciam uma espécie de choque cultural e se deprimem ao comparar essas realidades civilizadas com aquela que encontram no Brasil: corrupção, violência, falta de educação, enfim - atraso material e, principalmente, cultural e moral. Por essa razão, sempre opto por reter na memória aquilo que é bom e faz bem. É assim que procuro manter, em minha mente e espírito, as melhores lembranças de minhas viagens. Estive há pouco na Áustria para realizar uma pesquisa em museus e tive a oportunidade de conhecer Viena e alguns lugarejos às margens do Danúbio. Aproveitei também para dar um pulo em Bratislava, que fica pertinho. Vou compartilhar um pouco dessas lembranças com você.

Ruas e avenidas limpas, bem planejadas e construídas com material de alta qualidade. Assim é Viena! - Foto: Selma

Retrato de Viena no final do verão: o Volksgarten ou "Parque do Povo"com jardins bem cuidados e muitas flores.
Foto: Simone Catto
 
Volksgarten - Foto: Simone Catto

O compositor Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791), um dos maiores da Áustria, recebeu uma bela homenagem no Volksgarten - Foto: Selma

Viena não é dos destinos internacionais mais procurados pelos brasileiros e, talvez, nem mesmo pelos próprios europeus ou asiáticos. Devo dizer que acho isso bom, porque ela não é invadida pelas hordas de turistas que vemos em Paris ou Roma, por exemplo. Assim que cheguei, constatei que a cidade é a quintessência da civilização. Com uma infinidade de praças e parques, ruas limpas e impecáveis, belas construções ao estilo Art Nouveau germânico, o Jugendstil, além de museus variados e uma população culta e educada, Viena é extremamente acolhedora para o turista. Eu, que sou de São Paulo e topo diariamente com ruas lotadas, poluição, barulho e, vira e mexe, com gente que ainda não percebeu que a Idade da Pedra já acabou há algum tempo, tive um impacto altamente positivo e agradável ao chegar lá. Se por um lado eu já esperava encontrar toda essa beleza e organização, me surpreendi ao verificar que os vienenses são ainda mais civilizados do que eu imaginava.

Marie-Theresien-Platz, a enorme praça ajardinada que fica no centro do quarteirão dos museus.
Foto: Simone Catto

Belos exemplos da arquitetura vienense - Foto: Simone Catto

Se você já visitou Viena, ótimo! Fico feliz que também tenha tido a oportunidade de curtir a cidade. Mas se ainda não esteve por lá, vale a pena pensar no assunto. Para começar, não há como não se admirar com os parques e jardins que tanto contribuem para a qualidade de vida dos habitantes da cidade. A esse respeito, vale mencionar um estudo da consultoria internacional Mercer, de 2015, que classificou Viena em primeiro lugar no quesito qualidade de vida, pela sétima vez consecutiva, em relação a outras 230 cidades do mundo. A título de comparação, basta dizer que São Paulo amargou um 121º lugar. Sim, é de chorar pedra.

O curioso é que Viena tem mais de 1,6 milhão de habitantes, mas não se vê toda essa gente na rua. Imagino que a distribuição populacional seja equilibrada pelos bairros, possivelmente porque todas as regiões da cidade têm um bom planejamento urbano que inclui muitas áreas verdes, excelente infraestrutura de transporte e serviços de qualidade aos moradores.

O Burggarten, parque muito frequentado pelos vienenses, não aceita a entrada de cães - Foto: Simone Catto

No Burggarten e nos outros parques de Viena, as pessoas podem
se sentar para conversar ou ler um livro sem ser incomodadas.
Foto: Simone Catto

O sossego do Burggarten - Foto: Simone Catto

Burggarten com estátua do imperador Franz Joseph (1830-1916), marido da imperatriz Sissi - Foto: Simone Catto

Não há um só bairro na cidade que não tenha um parque ou vários jardins. E os vienenses sabem aproveitá-los porque sabem viver. Em Viena não há estresse - pelo menos, não o tipo de estresse com o qual estamos tristemente habituados por aqui. Lá as pessoas não correm enlouquecidas, não são escravas do trabalho. Não precisam matar um leão - ou um zoológico inteiro - por dia para colocar comida no prato da família ou pagar as contas no fim do mês. Os vienenses têm tempo e condição para ir aos parques para caminhar, correr, relaxar depois do expediente, levar as crianças para brincar. O parque Prater, por exemplo, é o maior da cidade, com 6 milhões de metros quadrados. Sua avenida principal cobre, em linha reta, mais de 4 km. Ele tem aparelhos de ginástica ao ar livre, campo de futebol, quadras poliesportivas e de tênis, passeios a cavalo e muitas outras instalações para as pessoas praticarem esportes respirando ar puro.

O imenso parque Prater tem várias placas alertando os pedestres sobre o trânsito de cavalos - Foto: Simone Catto

Um recanto de paz no parque Prater, verdadeiro oásis vienense - Foto: Simone Catto

Deve ser muito bom ler um livro aí! Pena que não tive tempo para isso... - Foto: Simone Catto

O compositor Carl Michael Ziehrer (1843-1922), um dos maiores rivais da família Strauss, também recebeu uma justa homenagem no Prater - Foto: Selma

O Prater também é conhecido por abrigar o parque de diversões mais antigo do mundo. A roda-gigante, símbolo de Viena, foi construída em 1897 para comemorar o cinquentenário da ascensão do imperador Franz Joseph ao trono e tem mais de 60 metros de altura. Já foi ultrapassada em suas dimensões por outras rodas-gigantes mais modernas, como a de Paris, mas vale como diversão vintage.

A roda-gigante do Prater - Foto: Selma

O transporte público em Viena é extremamente prático e eficiente. Há bilhetes com períodos de validade diferentes e você pode usar o mesmo bilhete para o ônibus, metrô ou bonde. Muitos vienenses também optam pela bicicleta. Vale ressaltar que Viena pode se dar ao luxo de ter ciclovias porque, ao contrário de São Paulo, foi muito bem planejada e seus habitantes são civilizados. Ciclistas não atropelam pedestres e carros não atropelam ciclistas. É "outro patamar", como diz uma amiga. Trânsito não se vê nas ruas. Congestionamentos são inexistentes. O turista ainda pode passear em charretes que remetem aos tempos da imperatriz Elizabeth da Áustria, a famosa Sissi, conduzidas por motoristas com trajes de época e garbosos cavalinhos. Se preferir, também pode fazer um tour num simpático veículo que batizei de "ciclotáxi", uma espécie de triciclo com pedal e capota, conduzido por um motorista. Pois é. Isso é Primeiro Mundo.

A charrete, como no tempo do império austro-húngaro - Foto: Selma
  
Da mesa onde tomava um vinho avistei aquilo que batizei de "ciclotáxi", transportando
turistas para lá e para cá - Foto: Selma

Outra coisa que chama atenção na cidade é a quantidade de galerias de arte e lojas de antiguidades. O mais fantástico é que muitas dessas lojas são segmentadas, isto é, especializadas em determinados tipos de produtos, como livros raros, aquarelas, moedas, porcelanas... e por aí vai. Daí conclui-se que, se essas lojas existem, é porque também existe público para elas, concorda? Vienenses, e austríacos em geral, têm cultura suficiente e poder aquisitivo para consumir obras de arte e belos objetos de decoração. É mesmo um mundo que está a anos-luz do Brasil. Daqui a alguns milênios, quem sabe, a gente chega lá.

Esse antiquário é especializado em livros antigos e existe há quase cem anos - Foto: Simone Catto

Fiquei encantada com essas bucólicas pinturas e aquarelas! - Foto: Simone Catto

E o que dizer dessa miniárvore com ovinhos Fabergé? A grande
vantagem é que ela serve para decorar a casa no Natal e na
Páscoa, hehe... - Foto: Simone Catto

Um dos índices que mostram o grau de civilidade de um país é o respeito por sua memória e história, aí incluídas as pessoas que ajudaram a escrever essa história. É por isso que, em Viena, sempre encontramos monumentos ou esculturas que homenageiam grandes personalidades do mundo germânico – sejam elas oriundas das artes, da política, da música ou da literatura. Nem é preciso dizer que esses monumentos estão sempre limpos, bem preservados, sem a menor sombra de pichação ou vandalismo.

Schillerplatz, a praça batizada em homenagem a Friedrich Schiller (1759-1805), médico, historiador, filósofo e um dos maiores poetas alemães - Foto: Simone Catto

Schiller, o poeta homenageado - Foto: Selma

Goethe (1749-1832), um dos maiores escritores de língua germânica,
também é reconhecido em Viena - Foto: Simone Catto

Naturalmente, uma só postagem não é suficiente para relatar todas as coisas boas que vi e vivenciei em Viena, mas isto é só para começar. Tenho estado bastante atarefada, mas prometo me organizar para ter tempo para publicar, em breve, mais posts sobre essa linda cidade. Até mais! Ou, como diriam os vienenses... Bis später!