domingo, 16 de julho de 2017

Manguin, a volúpia da cor.

Fonte: Musée des Impressionismes Giverny | Tradução e adaptação: Simone Catto

Quando falamos em fauvismo, na hora lembramos nomes como Maurice de Vlaminck (1876-1958), André Derain (1880-1954) e, sobretudo, Henri Matisse (1869-1954), para muitos o maior dos fauves. No entanto, houve um outro "Henri" menos famoso, porém não menos genial quando se tratava de festejar a vida com pinceladas de cores vibrantes e intensas, merecendo com justiça brilhar no mesmo patamar dos demais. 

Definido pelo escritor Guillaume Apollinaire (1880-1918) como "o pintor voluptuoso", Henri Manguin (1874-1949) presta tributo à alegria de viver com temas bucólicos, nus, paisagens mediterrâneas, cenas da vida familiar e naturezas-mortas. Desde os anos de formação, nos quais os ensinamentos do pintor simbolista Gustave Moreau (1826-1898) acompanharam suas primeiras experiências impressionistas, até a Primeira Guerra Mundial, o artista foi fiel à expressão de uma sensualidade abertamente feliz.

Henri Manguin - 'Devant la fenêtre, rue Boursault' (Em frente à janela, rua Boursault) (1904)
óleo s/ tela - 61 X 50 cm - coleção particular

Henri Manguin - 'La Pinède à Cavalière' (O Pinhal em Cavalière) (1906) - óleo s/ tela - 65 X 81 cm - coleção particular

Agora, quem tiver a sorte de estar na região da Normandia ou mesmo em Paris, poderá apreciar a exposição 'Manguin, la volupté de la couleur', no Musée des Impressionismes Giverny, que apresenta cerca de 80 obras do artista que desfrutou da amizade do xará Henri Matisse. O foco está no período em que Manguin, o qual demonstrou muito cedo um talento e inventividade raros em suas harmonias cromáticas, acompanha – e talvez até preceda – as audácias dos pintores fauves com os quais expôs no Salão de Outono de 1905.


Henri Manguin - 'L'amandier en fleurs' (A amendoeira em flor) (1907) - óleo s/ tela - 65 X 81 cm
coleção particular, Suíça.

Henri Manguin - 'La Couseuse à la robe rouge, Jeanne' (A Costureira de vestido vermelho, Jeanne) (1907) óleo s/ tela
81 X 100 cm - coleção particular

Henri Manguin - 'Le 14 juillet à Saint Tropez, côté gauche' (O 14 de julho em Saint Tropez, lado esquerdo) (1905)
óleo s/ tela - 61 X 50 cm - coleção particular

Com curadoria de Marina Ferretti, diretora científica do Musée des Impressionismes Giverny, a exposição foi inaugurada no dia 14 de julho, data da festa nacional da França, e ficará em cartaz até 5 de novembro. E ainda: em Giverny, ainda dá para aproveitar o dia e visitar a casa e o maravilhoso jardim de Claude Monet. Imperdível!

Anote: exposição 'MANGUIN, LA VOLUPTÉ DE LA COULEUR' - Musée des Impressionismes Giverny - 99 rue Claude Monet - 27620 Giverny - Tel.: +33 (0)2 32 51 94 65. Abre todos os dias até 5 de novembro, das 10h às 18h. O ticket para adultos custa 7 euros. Dica: Giverny fica a cerca de uma hora de Paris, é só pegar o trem para Vernon na Gare Saint-Lazare.

terça-feira, 11 de julho de 2017

Mostra de arte sobre papel tem Degas, Picasso, Matisse e ótimas surpresas.

Sempre foi uma prática comum, entre os grandes pintores e também escultores, fazer desenhos preparatórios antes de partir para a obra definitiva, fosse ela uma pintura ou escultura. Muitos desses esboços ou estudos eram feitos em grafite ou nanquim sobre papel, por exemplo. Porém, quando falamos de artistas detentores de um talento excepcional ou um daqueles seres tocados pela genialidade, não raro esses desenhos se sustentam por si mesmos, adquirindo a autonomia de verdadeiras obras de arte.

É óbvio que muitas vezes o artista já concebeu o desenho como obra final, autônoma, e não necessariamente como um esboço preparatório para outra obra. Creio que as duas vertentes estejam presentes na mostra 'Tesouros da Fundação MAPFRE – obras sobre papel', atualmente no Museu Lasar Segall. A exposição reúne 59 obras criadas por artistas de diferentes nacionalidades entre o final do século XIX e meados do século XX, pertencentes ao acervo da multinacional espanhola do ramo de seguros. Além de desenhos, há também aquarelas, colagens, obras com técnica mista, mas sempre criadas sobre papel e pertencentes a diferentes estilos: figurativas, abstratas, surrealistas, simbolistas, dadaístas - algumas poéticas, outras dramáticas e algumas francamente irônicas.

Fui ao vernissage no dia 4 de julho, terça-feira, mas havia tanta gente que não consegui apreciar direito a exposição. Consegui retornar ao museu três dias depois para observar calmamente as obras e selecionei algumas que chamaram minha atenção. Por vezes, a película de vidro que as protege prejudicou a foto, peço desculpas, mas mesmo assim dá para visualizá-las.

Noite do vernissage, 4 de julho - Foto: Simone Catto

De cara, somos saudados por uma bela espanhola de Francis Picabia (1879-1953), um dos principais nomes do dadaísmo. Aqui, no entanto, o artista deixou o dadaísmo de lado para representar sua espanhola de forma convencional, com o característico pente no cabelo, traços delicados e olhos azuis.

Francis Picabia - 'Espanhola - Mulher com pente' (1922) - aguada e grafite s/ papel
Foto: Simone Catto

A outra espanhola da mostra é obra do cubista Albert Gleizes (1881-1953), contemporâneo de Picabia. Gleizes nos brinda com uma colorida e exuberante dançarina de flamenco que, embora seja anterior à obra do primeiro, tem traços modernos.

Albert Gleizes - 'Bailarina Espanhola' (1916) - têmpera s/ papel - Foto: Simone Catto

E já que falamos em cubismo, é evidente que no acervo de uma organização espanhola como a MAPFRE não poderiam faltar obras de Pablo Picasso (1881-1973).

Pablo Picasso - 'Arlequim e Polichinelo' (1924) - têmpera s/ papel - Foto: Simone Catto

No entanto, sabemos que nem tudo foi cubismo em Picasso... é o que mostra o nanquim a seguir, uma imagem pungente e dramática da maternidade.

Pablo Picasso - 'Maternidade' (1902-3) - nanquim s/ papel - Foto: Simone Catto

Já deu para notar que na mostra não faltam expressivas representações de mulheres. Salvador Dalí (1904-1989), conterrâneo de Picasso, comparece com um nu nada surrealista que remete de imediato à tradição clássica. Uma curiosidade: parece que o artista fez o desenho no primeiro papel que lhe caiu às mãos, já que dá para visualizar uma pauta impressa no verso, indicando que não se trata de um papel de desenho. 

Salvador Dalí - 'Mulher' (1923) - grafite s/ papel - Foto: Simone Catto

O nu do francês André Lhote (1885-1962), também criado em grafite, tem uma pose menos convencional e um título muito feliz.

André Lhote - 'Bacante' (1910) - grafite s/ papel - Foto: Simone Catto

E o que dizer da pastoral hedonista do catalão Joaquim Sunyer (1874-1956)? Impossível não lembrar das banhistas de Cézanne e das festivas personagens de Matisse.

Joaquim Sunyer - 'Pastoral' (1918) - óleo e têmpera s/ papel - Foto: Simone Catto

Porém, nem todas as mulheres parecem estar se divertindo tanto... algumas estão sérias, pensativas, impenetráveis em seus rostos simbolistas.

Fernand Khnopff (1958-1921) - 'A Desconfiança' (1893)
platinotipia colorida com crayon em cores - Foto: Simone Catto

Sir Edward Coley Burner-Jones (1833-98) - 'Retrato de uma jovem, possivelmente
Maria Zambaco'
(1874) - lápis s/ papel - Foto: Simone Catto

Algumas senhoras estão ocupadas organizando a agenda... como mostra o desenho abaixo, realizado com elegante economia de traços por Henri Matisse (1869-1954). 

Henri Matisse - 'Mulher com agenda' (1944) - nanquim s/ papel - Foto: Simone Catto

Edgar Degas (1834-1917) é um artista que fez incontáveis estudos e desenhos. Ele frequentava os bastidores da Ópera de Paris e registrou, sobre papel, centenas de bailarinas tendo aula, ensaiando, descansando, ajeitando a roupa ou então em cena, no próprio palco. A maioria desses desenhos são obras de arte da mais alta qualidade, suficientes em si mesmas, e vários também serviram como estudos para pinturas a óleo que Degas criou posteriormente no ateliê. O desenho da exposição é típico e não duvido que a bailarina abaixo, com essa pose, tenha figurado em uma ou mais pinturas do artista.

Edgar Degas - 'Duas bailarinas' (c.1890) - carvão e sanguínea s/ papel-carbono - Foto: Simone Catto

Invariavelmente, as mulheres do austríaco Gustav Klimt (1862-1918) aparecem altivas, orgulhosas de sua condição feminina. Como a mulher da imagem abaixo, que tem o queixo elevado, sinal indiscutível de altivez, e parece sorrir feliz. A foto não faz jus à grandeza da obra ao vivo, mas os belos traços e o inconfundível estilo de Klimt estão inegavelmente presentes.

Gustav Klimt - 'Mulher sentada com chapéu' (c.1910) - grafite e lápis
de cor azul s/papel japonês - Foto: Simone Catto

A mulher do espanhol Isidre Nonell (1872-1911) também está sentada, mas parece ter aspirações bem mais simples que a de Klimt.

Isidre Nonell - 'Mulher sentada' (1906) - lápis gorduroso e aguada de cor
s/ papel vergê - Foto: Simone Catto

A sátira implacável do alemão George Grosz (1893-1959) diverte na imagem em que dois casais com intenções para lá de questionáveis compartilham a mesma sala burguesa.

George Grosz - 'Uma tarde em Berlim' (1929) - aquarela, grafite e tinta s/ papel - Foto: Simone Catto

Interessantes obras abstratas também marcam presença na exposição e algumas se destacam pelo colorido vibrante, como as obras de Paul Klee (1879-1940) e Sonia Delaunay (1885-1979).

Paul Klee - 'Jovem palmeira' (1929) - aquarela e grafite s/ papel - Foto: Simone Catto

Sonia Delaynay - 'Disco Portugal' (1915) - têmpera s/ papel - Foto: Simone Catto

Se você mora em São Paulo ou está temporariamente na cidade, vale a pena conferir a exposição, lembrando que a entrada é franca e o museu fica a meio caminho entre as estações de metrô Santa Cruz e Vila Mariana. Depois ainda dá para tomar um cafezinho por lá mesmo!

Anote: 'TESOUROS DA FUNDAÇÃO MAPFRE – OBRAS SOBRE PAPEL'. Museu Lasar Segall – Rua Berta, 111 - Vila Mariana. Tel.: (11) 2159-0400. Abre de quarta a segunda, das 11h às 19h. Entrada franca. Até 28/8.

sábado, 8 de julho de 2017

A mansão do pintor Caillebotte perto de Paris é aberta ao público.

Fontes: Les Echos e Proprieté Caillebotte | Tradução e adaptação: Simone Catto

Gustave Caillebotte (1848-94) foi um homem incomum, uma daquelas raras criaturas que têm o dom de iluminar a vida de quem cruza seu caminho. Herdeiro de uma grande fortuna, teve tempo e meios para se dedicar a todas as atividades que o faziam feliz: pintura, jardinagem, esportes náuticos, filatelia e muitos outros interesses. Com um olho inconfundível para a beleza e a arte, reconheceu de imediato o valor das pinturas impressionistas assim que visitou a primeira exposição do movimento. Mais do que isso, tornou-se amigo de seus artistas e, dotado de uma generosidade inesgotável, ofereceu bem mais do que amizade a esse grupo de pintores geralmente depauperados: comprou diversos de seus trabalhos e ajudava-os a pagar suas contas. Agora, os franceses poderão visitar a residência de férias onde a família Caillebotte passava muitas temporadas e onde o pintor criou cerca de 90 pinturas nos verões da década de 1870.

A mansão da família Caillebotte - Foto: Christophe Brachet

Gustave Caillebotte
A mansão familiar que o pintor Gustave Caillebotte frequentou por quase 20 anos, localizada no distrito de Essonne, abriu suas portas em 10 de junho. Decoração e mobiliário foram reconstituídos conforme os inventários anexados às notas de venda da propriedade. A reabertura do local de férias dos Caillebotte, no município de Yerres, havia sido anunciada há tempos. É a concretização de um projeto de mais de vinte anos iniciado pelo prefeito, Nicolas Dupont-Aignan, bem antes que ele se tornasse potencial Primeiro Ministro de Marine Le Pen entre os dois turnos da eleição presidencial da França, desagradando parte de seu eleitorado local e a totalidade dos prefeitos do conglomerado Val d'Yerres-Val de Seine, presidido por ele. Porém, independentemente de suas inclinações políticas, é inegável que o prefeito fez bonito ao investir na preservação de um bem tão importante para a história e o patrimônio locais.  


O parque da propriedade da família é extremamente acolhedor para uma leitura, passeio ou bate-papo - Foto: C. Fauré

Pintura de Gustave Caillebotte - 'Parque da propriedade Caillebotte em Yerres' (1875) - óleo s/ tela
65 X 92 cm - coleção particular

A propriedade de Yerres, comprada em 1870 pelo pai de Caillebotte, rico negociante de tecidos, era um local de encontro para seus filhos. Gustave, o pintor, e seu irmão Martial, compositor, costumavam ir à casa para descansar e passear de barco no Rio de Yerres, que permeia toda a propriedade, até a venda do local, em 1879. Após a restauração do parque e sua abertura ao público, seguida da abertura de uma velha construção agrícola transformada em espaço de exposições, em 2009, a mansão foi inaugurada em junho de 2017.

O Rio de Yerres, onde Caillebotte fez tantos passeios de barco ao lado da família - Foto: Christophe Brachet

Pintura de Gustave Caillebotte - 'Botes no Rio Yerres' (1877) - óleo s/ tela - 103,51 X 155,89 cm
Milwaukee Art Museum - EUA 

O projeto era deixar a construção tal qual havia sido reestruturada, decorada e mobiliada entre 1824 e 1843, conforme os documentos de venda, mostrando que poucas mudanças foram realizadas até a chegada dos Caillebotte. Foi Pierre Frédéric Borrel, antigo chef proprietário do Au Rocher de Cancale, célebre restaurante da rua Montorgueil que reunia artistas e políticos de Paris, o responsável pela transformação de um domínio senhorial do ano de 1600 em uma aconchegante villa neopalladiana. Colunatas, estátuas e baixos-relevos fazem contraponto a um parque no estilo inglês percorrido por riachos e adornado por outras construções pitorescas erigidas exclusivamente para embelezá-lo.

L'Orangerie - Foto: Stéphane Melard

A êxedra - Foto: Christophe Brachet. Esse recanto foi construído pelo antigo proprietário Pierre Frédéric Borrel
e inspirado nas
 êxedras da Grécia Antiga, pátios circulares onde os filósofos e anciões se reuniam para conversar.

Móveis recomprados

Após abrir falência, o chef revendeu a propriedade à viúva de Martin-Guillaume Biennais, carpinteiro nomeado por Napoleão e depois pela coroa. Ela levou à mansão móveis da loja do marido recém-falecido, dentre os quais um conjunto de dormitório que nem estava mais no país. O mobiliário havia sido dispersado nos anos 1960, cerca de quinze anos antes que a prefeitura adquirisse a propriedade pelo valor simbólico de um franco. Dizia-se que estavam na América, mas haviam sido comprados pelo incorporador de imóveis Robert de Balkany para mobiliar sua residência particular parisiense. Após o falecimento do empresário, os móveis apareceram na Sotheby's para serem leiloados. A prefeitura pôde recomprá-los graças aos lances de uma delegação do "direito de preferência", uma lei francesa que confere à Administração o direito de ter preferência na compra de um bem relevante sobre outro comprador. Normalmente, é um direito reservado aos museus do Estado, para que importantes bens culturais permaneçam no país e fiquem acessíveis a seus cidadãos.

Os trabalhos realizados sob a égide dos Monumentos Históricos custaram 1,6 milhões de euros e foram financiados em mais de 50% pela municipalidade e instituições governamentais. Várias fundações contribuíram com empréstimos ou doações ao projeto. O Mobilier National, por exemplo, emprestou por 30 anos vários móveis de época que constituem três quartos do mobiliário da mansão, e o restante foi garimpado pelo coordenador do projeto, Nicolas Sainte-Fare Garnot, curador-chefe do encantador museu Jacquemart-André, em Paris. Além disso, mais de 740 mecenas individuais e empresas particulares também contribuem com doações. Ou seja: num país onde a cultura é valorizada e o dinheiro não é desviado por governantes corruptos, os empresários não têm medo de investir. Melhor nem comparar com o Brasil para não sentir vergonha ou depressão!

A Sala de jantar da mansão - Foto: site da Proprieté Caillebotte

Descoberta de revestimentos de época

Várias pesquisas do escritório de arquitetura Vermeulin permitiram descobrir a disposição inicial das peças, mas também as cores dos revestimentos da época. "O visitante vai encontrar um conjunto de artes decorativas e arquitetônicas correspondente ao gosto da Restauração, sem equivalente na Île-de-France até o momento.", exulta o curador. 

Yerres fica a cerca de 25 quilômetros de Paris, de forma que é muito fácil fazer um bate-e-volta para conhecer essa bela propriedade. Endereço: 8, rue de Concy, 91330 - Yerres. Tél. : 01 80 37 20 61 (Negócios Culturais do Patrimônio). O site está apenas em francês, mas, mesmo que você não entenda o idioma, vale a pena dar uma olhada nas belas imagens: www.proprietecaillebotte.com

O parque tem entrada livre e abre de segunda a domingo, mas possui horários de funcionamento diferentes, dependendo da época do ano. De 1º/6 a 31/7, auge do verão europeu, abre das 9h às 21h. Horários de visita à mansão: de 15/3 a 1º/11, terça a domingo, das 14h às 18h30. O ticket para a mansão custa 8 euros para adultos não residentes na cidade. Vai passar um tempo em Paris? Vale a pena dar uma esticada até lá e sentir, na pele, a atmosfera encantadora legada pelos Caillebotte!

domingo, 2 de julho de 2017

Como 100 milhões de euros em pinturas roubadas podem ter ido parar num lixão.

Fontes: Artsy e The New York Times | Tradução e adaptação: Simone Catto

O Palais de Tokyo, que abriga o Musée d'Art Moderne de la Ville de Paris

De vez em quando, a gente depara com um roubo de arte digno de uma história de Sherlock Holmes. Em 2010, cinco obras de arte – avaliadas em 100 milhões de euros e por muitos consideradas de valor inestimável – foram roubadas do Musée d'Art Moderne de la Ville de Paris. O ladrão conseguiu burlar sistemas de segurança e escapou das vistas de guardas sonolentos. Pinturas de Picasso, Léger, Braque, Matisse e Modigliani foram cuidadosamente retiradas de suas molduras e desapareceram na noite. À época, o prefeito da cidade, Bertrand Delanoë, descreveu o caso como "um intolerável ataque à herança cultural universal de Paris." As obras, nunca mais encontradas, podem estar hoje num lixão.

O Roubo

Por volta das três horas da manhã do dia 20 de maio de 2010, o ladrão, um homem de 42 anos chamado Vjeran Tomic e apelidado de "Homem-Aranha", afrouxou os parafusos das esquadrias de uma janela do Palais de Tokyo. Além de ser o maior espaço da França para exposições de arte contemporânea, o prédio Art Déco, que fica ao lado do Rio Sena e não longe da Torre Eiffel, abriga o Musée d'Art Moderne. Foi naquele museu que Tomic, cujas acrobacias em inúmeros furtos justificam seu apelido, sabia que iria encontrar seu alvo: "Nature Morte aux Chandeliers" (Natureza-Morta com Castiçais), uma tela de 1922 do renomado pintor francês Fernand Léger. O plano inicial era roubar o Léger e entregá-lo a um antiquário chamado Jean-Michel Corvez, que lhe pagaria 40 mil euros.

Fernand Léger - 'Nature Morte aux Chandeliers' (1922), a tela encomendada
a Tomic pelo antiquário ladrão.

Cinco anos antes de Tomic arrombar o gradil trancado a cadeado atrás da janela e escalar para dentro do museu para efetuar o roubo, a instituição havia reforçado seu sistema de segurança como parte de uma reforma de 15 milhões de euros, conforme o The Wall Street Journal. Mais tarde, Tomic diria à polícia que ficara "surpreso" pelo fato de nenhum alarme haver disparado quando ele cuidadosamente tirou o Léger de sua moldura. Ocorre que, por um golpe de sorte do criminoso, o sistema de segurança do museu estava à espera de um conserto havia várias semanas. Então o gatuno, que se autointitula "amante da arte", decidiu dar uma olhadinha em volta. Percorreu várias galerias, escapando das câmeras de segurança, e pegou quatro outras pinturas antes de deixar o museu. Entre elas estavam: "Le Pigeon aux Petit Pois" (O Pombo com Ervilhas) (1911), de Pablo Picasso, avaliada em 23 milhões de euros; "La Pastorale" (A Pastoral) (1905), de Henri Matisse, de cerca de 15 milhões de euros; "L'Olivier Près de l'Estaque" (A Oliveira perto de Estaque) (1906), de  Georges Braque; e "La Femme à l'Éventail" (Mulher com Leque) (1919), de Amedeo Modigliani.

Henri Matisse - 'La Pastorale' (1905), um dos quadros roubados.

Três guardas estavam de serviço na manhã de 20 de maio de 2010. Uma hora após o nascer do sol, por volta das 7 horas, quando se preparavam para abrir o museu, eles notaram as molduras vazias e avisaram a polícia. Os homens não haviam visto e nem ouvido nada. Membros da tropa de elite de Paris para roubos armados, a Brigade de Répression du Banditisme, atenderam ao chamado. Naquele dia, os visitantes do Musée d'Art Moderne encontraram um aviso dizendo que o museu estaria fechado por "razões técnicas". O jornal The Guardian descreveu a cena do lado externo: "A mídia de todo o mundo se aglomerou em torno dos policiais que estavam de guarda" e "no início da tarde a entrada do museu havia sido isolada e foram erguidas barreiras de segurança."

À época, o impacto do roubo foi um misto de choque, ameaça e espanto. Alice Farren-Bradley, então membro do Art Loss Register ("Registro de Arte Perdida"), em Londres, classificou o caso como "um dos maiores roubos jamais ocorridos", considerando-se o valor estimado das obras, a proeminência dos artistas e a relevância do museu. O secretário de cultura da cidade à época, Christophe Girard, descreveu o impacto psicológico do roubo: "As pessoas no museu estão traumatizadas", afirmou. "São obras de arte muito importantes. É óbvio que o sistema de segurança estava superado."

Amedeo Modigliani - 'La Femme à l'Éventail' (1919)

Tim Marlow, historiador de arte e diretor artístico da Royal Academy de Londres, ficou impressionado com o "olho" de Tomic. "Aqueles são trabalhos das maiores figuras da arte do início do século XX", disse para o jornal The Telegraph. "Devo dizer que esse ladrão tem bom gosto – ele sabia o que estava roubando."

De fato, claro está que, desde o planejamento até o roubo propriamente dito, o criminoso tinha alguma noção do que estava fazendo. O que não ficou claro, naquele momento, é se ele sabia o que faria na sequência. "Você não pode fazer qualquer coisa com aquelas pinturas", explicou Pierre Cornette de Saint-Cyr, então diretor do Palais de Tokyo. A polícia internacional ficou alerta, de olho se alguma obra aparecesse. Elas nunca poderiam ser oferecidas no mercado ou mostradas a colecionadores honestos que provavelmente as reconheceriam e fariam uma denúncia. Nesses casos, os ladrões às vezes tentam obter um resgate para devolver a obra, mas isso também é difícil. Então Saint-Cyr mandou uma mensagem direta aos criminosos: "Essas cinco pinturas são invendáveis; portanto, senhores ladrões, vocês são imbecis – agora, devolvam-nas." Em vão.

Georges Braque - 'L'Olivier prês de l'Estaque' (1906)

Prisão e Processo

A polícia levou mais de um ano para descobrir os três envolvidos no roubo. Além de Tomic e o antiquário Corvez, um relojoeiro chamado Yonathan Birn também foi indiciado. O que não apareceu, contudo, foram as obras de arte. Se o relojoeiro Birn disse a verdade, as telas não existem mais, destruídas por um caminhão de lixo. "Joguei-as no lixo", contou um Birn choroso à corte três vezes ao longo do processo. "Cometi o pior erro de minha existência." Último a ser capturado, Birn afirmou ter ficado em pânico quando os outros dois criminosos foram pegos pela polícia em maio de 2011 e se desfez de todas as obras. O juiz da investigação, Peimane Ghaleh-Marzban, duvida que Birn tenha feito isso, assim como os outros réus, que declararam que ele era "inteligente demais" para simplesmente descartar obras de arte tão valiosas. O próprio Tomic quer saber onde estão as pinturas, afirmando com uma cara de pau que beira a puerilidade: "Aquelas são minhas obras de arte". Farren-Bradley, atual chefe da Rede de Segurança do Museu, disse: "Podemos apenas ter esperanças de que as declarações do Sr. Birn sobre a destruição das obras sejam mentira." Porém, ela acrescentou que em outros casos de roubo de arte, quando os bandidos julgavam "muito perigoso" manter as obras em seu poder, estas sofreram sérios danos ou foram mesmo destruídas.

Pablo Picasso - 'Le Pigeon aux Petis Pois' (1911)

O fato é que o destino das pinturas até hoje permanece um mistério. Depois que a polícia prendeu Tomic, ele relatou, no interrogatório, que havia planejado roubar apenas a obra de Léger para Corvez, o qual havia confessado já ter receptado mercadorias roubadas em ocasiões anteriores. Quando Tomic lhe mostrou as outras pinturas, contou que Corvez ficou chocado e não estava seguro se poderia vendê-las. Nervoso por ter tais preciosidades em suas mãos, Corvez mostrou-as a Birn, seu amigo, o qual afirmou que compraria o Modigliani por 80 mil euros e guardaria o restante. Quando a polícia fez as prisões, um Birn nervoso relatou que tirou o Modigliani do cofre do banco onde havia depositado a obra e a destruiu, ao lado das outras quatro. Na ocasião a polícia vasculhou a casa de Birn devido a um outro roubo, mas não encontrou as pinturas.

A polícia também diz que um smartphone prova que Tomic ou um de seus comparsas estava na área do museu na noite do crime. Após fazer uma busca no apartamento de Tomic, oficiais encontraram todo o equipamento de escalada que alguém poderia esperar encontrar no antro de um ladrão conhecido como "Homem-Aranha", incluindo luvas, cordas, arreios, calçados para escalada e ventosas. Tomic também tem 14 condenações anteriores por roubo. Embora ele tenha escapado de algumas câmeras de segurança, conseguindo até desativar uma delas, alguns vídeos do museu capturaram uma figura corpulenta fortemente disfarçada que a polícia afirma ser o criminoso.

Atualmente com 49 anos, Tomic foi acusado de roubar propriedade cultural e em fevereiro deste ano pegou oito anos de prisão. O antiquário Jean-Michel Corvez, 61, pegou sete anos, e o relojoeiro Yonathan Birn, 40, pegou seis anos por guardar as pinturas posteriormente.

Em tempo: confesso que achei as penas muito leves pelo perda que os criminosos causaram. Não duvido que, assim que for solto, o tal Vjeran Tomic volte a praticar novos roubos!

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Cícero Dias no CCBB (parte 3): Paris abraça o mestre dos trópicos.

Este é o último de uma série de três posts sobre a exposição 'Cícero Dias – Um percurso poético 1907-2003', no Centro Cultural Banco do Brasil - SP, que abarca a trajetória do artista pernambucano que nasceu no engenho e conquistou o Velho Mundo.

Cícero teve uma vida longa, produtiva e feliz, marcada por muito trabalho e cercada por muitos afetos. Afeto por sua terra natal, por sua esposa Raymonde, pela filha Sylvia, pelos incontáveis e ilustres amigos e por sua própria arte, por ela se tornar o canal pelo qual podia expressar todo esse amor que explodia dentro dele.

No primeiro post, falei sobre a fase inicial e figurativa do artista, ainda no Brasil. No segundo, contei como sua carreira se desenvolveu após sua mudança para a Europa, em 1937.

Agora é hora de falar da produção de Cícero após o final da Segunda Guerra Mundial, quando ele já estava definitivamente estabelecido em Paris. Sabemos que, durante a guerra, o artista mudou-se para Lisboa para ter um pouco de paz, e lá se casou com Raymonde. Quando a guerra acabou, Picasso, que era muito seu amigo, pediu-lhe que voltasse a Paris lhe enviando um exemplar de sua peça de teatro surrealista "Le Désir Attrapé par la Queue" ("O Desejo Capturado pelo Rabo"), com a seguinte dedicatória: "Para Dias, cuja presença em Paris é necessária." E assim, Cícero voltou à França, ligando-se em seguida à Escola de Paris e ao grupo de artistas abstratos que expunha na Galerie Denise René. Alguns de seus amigos e admiradores, como Manuel Bandeira, não gostaram muito do novo estilo artístico do mestre. Gilberto Freyre, por outro lado, teve um olhar mais compreensivo para a nova arte do amigo que havia ilustrado a capa da primeira edição de seu clássico "Casa Grande e Senzala", em 1933.  

Em Paris, Cícero teve uma vida cultural agitada. (Mas cá entre nós: como não ter uma vida cultural agitada em Paris? É matematicamente impossíve, rs...) O fato é que Cícero adotou a abstração plena, criando pinturas vibrantes, quentes, com cores intensas que evocam a luminosidade dos trópicos. Sua arte tornou-se ainda mais livre e instintiva. Os europeus, enfeitiçados com tanta vida, adoraram e aplaudiram.

Cícero Dias - 'Composição' (década de 40) - óleo s/ tela - Coleção Flávia e Waldir Simões de Assis Filho
Foto: Simone Catto

Embora nunca mais tivesse residido no Brasil, em 1948 o artista fez uma viagem para cá e pôde matar um pouco a saudade de sua terra. Na ocasião, executou várias pinturas murais abstratas na sede da Secretaria de Finanças do Estado de Pernambuco, no Recife. Essas obras foram consideradas as primeiras pinturas abstratas na América Latina e causaram celeuma à época.

Ainda no Brasil, ele aproveitou para fazer uma viagem ao Nordeste ao lado de um time para lá de respeitável: Rubem Braga, Mário Pedrosa, Orígenes Lessa e José Lins do Rego. Queria ter ouvido as conversas dessa turma!

Aqui no Brasil, o movimento construtivista só começou no final da década de 40. Cícero Dias foi o pioneiro que, em Paris, começou a pintar telas geométricas. Porém, mesmo fazendo parte da Escola de Paris, nunca renegou suas raízes brasileiras.

Cícero Dias - 'Sem título' (1951) - óleo s/ tela - Coleção MAC/USP
Foto: Simone Catto

No final dos anos 50 e início dos 60, o artista parece ter sentido uma espécie de nostalgia e fez um retorno à figuração, com imagens de sua juventude e lembranças do Recife. Mais do que simplesmente retornar às origens, porém, ele enriqueceu essas memórias afetivas incorporando as descobertas e aprendizados artísticos que acumulou ao longo de toda a vida. Nessa fase, as narrativas são menos fantasiosas, mas a cor torna-se ainda mais densa.

A obra a seguir exemplifica bem essa nova etapa. Conforme a inscrição que acompanha a pintura no CCBB, "...o artista rememora uma festa de família ao ar livre, com mesa farta e muita música. Ao fundo, uma igreja branca pousa sobre a colina de areia muito clara, tendo no seu flanco uma fileira de casas coloridas recortadas sobre o mar. Todos os elementos caros ao artista se reúnem nesse trabalho cujo título, não por acaso, é Nostalgia."

Cícero Dias - 'Nostalgia' (década de 50) - óleo s/ tela - Coleção Instituto São Fernando - Foto: Simone Catto
  
Cícero Dias - 'Infância em Boa Viagem' (década de 50) - óleo s/ tela
Coleção Beatriz e Fernando Xavier Ferreira - Foto: Simone Catto

Cícero dias - 'Figuras no Pátio' (década de 50) - óleo s/ tela
Coleção Flávia e Waldir Simões de Assis Filho - Foto: Simone Catto

Abaixo temos uma "composição idílica, sensual e musical" na qual uma vegetação exuberante se funde ao colorido casario, destacando a alvura de uma mulher seminua que está de costas para o seresteiro.

Cícero Dias - 'Seresta' (1950-69) - óleo s/ tela - coleção particular - Foto: Simone Catto

A partir de 1960, Cícero começou a desenvolver uma pesquisa geométrica denominada "Entropias", na qual fez um mergulho nas possibilidades do uso da tinta, sem nenhum planejamento formal prévio. Nessas obras, ele deixava a tinta escorrer e se misturar com as outras, até se esvair - veja a obra abaixo. A propósito, uma das definições de "entropia", segundo o dicionário Houaiss, é a medida da "desordem em um sistema", ou medida da "imprevisibilidade da informação". Mais uma marca da liberdade do artista que não se prendia a nenhuma escola!

Cícero Dias - 'Sem título' (década de 60) - óleo s/ tela - Coleção Maxime Dautresme, Hong Kong - Foto: Simone Catto

Cícero Dias - 'Composição IV' (1962) - óleo s/ tela - Museu Oscar Niemeyer - Foto: Simone Catto

Cícero Dias - 'Interior' (década de 70´) - óleo s/ tela -  coleção particular, Curitiba - Foto: Simone Catto

Cícero Dias e sua filha Sylvia no ateliê, 1996

Conheça as outras matérias do blog sobre a exposição Cícero Dias no CCBB!



Ainda não visitou a exposição? Corra que só vai até o dia 3 de julho!

Anote: 'CÍCERO DIAS – UM PERCURSO POÉTICO 1907-2003' - Centro Cultural Banco do Brasil – R. Álvares Penteado, 112 – Centro – São Paulo. Tel.: 3113-3671/3652 - de quarta a segunda, das 9h às 21h. Entrada franca. Até 3/7.

terça-feira, 27 de junho de 2017

Cícero Dias no CCBB (parte 2): Sedução na Europa com cor e caos.

Ele era genial, teve uma carreira longa e produtiva, e até o dia 3 de julho os paulistanos terão a oportunidade de conhecer sua obra. Estou falando de Cícero Dias, o artista pernambucano que é tema de uma grande mostra no CCBB em São Paulo, denominada 'Cícero Dias – Um percurso poético 1907-2003'. Este é o segundo post, de uma série de três, sobre a exposição do artista. Ocorre que a carreira de Cícero é tão rica e abrangente, que uma só matéria não seria suficiente para abarcar tantas coisas interessantes que vi por lá. Estão na mostra mais de 120 obras do artista pernambucano, pertencentes a coleções nacionais e internacionais.

No primeiro post, falei sobre a fase inicial de Cícero na década de 20, sua primeira exposição, realizada em 1928 no Rio de Janeiro, e parte de sua produção na década de 30. Aqui no Brasil Cícero fez sucesso entre os modernistas com suas aquarelas sensuais, lúdicas e também caóticas que remetiam às suas memórias de infância num engenho de cana-de-açúcar e suas aventuras urbanas no Recife e no Rio de Janeiro.

Neste post, vou abordar a primeira fase de Cícero Dias na Europa, sua chegada a Paris e a mudança para Lisboa após a eclosão da Segunda Guerra Mundial, abarcando a década de 40 até o início de sua transição para o abstracionismo.

Foto de Picasso com dedicatória:
"Lembrança para Dias - Seu amigo Picasso"
Perseguido pela ditadura de Getúlio Vargas, o artista viajou a Paris em 1937, convencido por ninguém menos que Di Cavalcanti. Sim, o moço era muito bem relacionado por aqui. No final, a mudança para Paris acabou se revelando a melhor coisa que ele poderia ter feito. Cícero integrou-se na hora à Cidade-Luz e, em 1938, fez sua primeira exposição por lá, na Galeria Jeanne Castel. A exposição foi sucesso de público, crítica e vendas e, não por acaso, o crítico de arte André Salmon chamou-o de "selvagem esplendidamente civilizado".

Não tardou para que Cícero fizesse amizade com grandes personagens como Picasso, Matisse e os poetas Paul Éluard e Blaise Cendras, dentre muitas outras figuras de destaque da intelectualidade francesa. Aliás, poucos artistas brasileiros se integraram tão bem quanto ele aos vanguardistas da arte europeia.

O velho clichê de dizer que alguém estava no lugar certo, na hora certa, se aplica muito bem a Cícero Dias. Tanto é verdade, que foi em Paris que ele também conheceria Raymonde, sua futura esposa, e onde nasceria sua amada filha Sylvia. Com tanto sucesso e tantos vínculos afetivos na França, dá para entender por que o artista nunca mais moraria no Brasil, embora as reminiscências de sua terra natal nunca tivessem abandonado sua obra.

Cícero Dias, Picasso e a pequena Sylvia Dias, filha do artista.
A jovem Raymonde Voraz (1918-2013) trabalhava com a irmã numa casa de alta-costura em Paris. Ela havia posado para um pintor espanhol chamado Macieira e, um dia, no ano de 1941, encontrou-o no metrô na companhia de Cícero. Foram apresentados e, na mesma hora, Cícero, que não era bobo nem nada, convidou a moça a tomar um café em sua casa, na companhia da irmã. Vale dizer que o café era um artigo raro e de luxo em tempos de guerra. Raymonde ficou encantada com aquele brasileiro e logo o artista passou a frequentar a casa de sua família.

Quando eclodiu a Segunda Guerra Mundial, em 1939, Cícero chegou a ser preso em Baden-Baden, para uma troca de prisioneiros, e foi responsável por levar a poesia "Liberté", de Éluard, para fora da França, então ocupada pelos nazistas. Impressa pelos Aliados, a poesia foi lançada de avião sobre Paris, para dar um ânimo extra à Resistência. Por ter corrido esse risco em favor dos Aliados, Cícero Dias foi até condecorado ao fim da guerra.

Nesses anos turbulentos, Cícero e Raymonde se casaram em Lisboa e fixaram residência na cidade até o fim do embate. Tem início, então, uma fase de transição. Numa tentativa de exorcizar o fantasma da guerra que ainda acontecia, o artista usa cores fortes, "fauvistas", cometendo grandes audácias no cromatismo e no traço. Ao mesmo tempo, simplifica o desenho. Não raro, seu trabalho foi executado em condições precárias devido às dificuldades de então. As formas tornam-se mais curvas e começa a nascer a semente do abstracionismo.

A obra abaixo foi realizada nesse período e retrata uma Raymonde radiante, envolta em luz, numa imagem que em nada lembra as agruras da guerra.

Cícero Dias - 'Raymonde' (década de 40) - óleo s/ tela - Coleção Sylvia Dias Dautresme, Paris
Foto: Simone Catto

Cícero Dias - 'Distante' (1940) - óleo s/ tela - Coleção Família Picasso - Foto: Simone Catto

Cícero Dias - 'Sem título' (c.1940-42) - aquarela e nanquim s/ papel
Coleção Sylvia Dias Dautresme, Paris - Foto: Simone Catto

Cícero Dias - 'Sem título' (1940-44) - aquarela e lápis de cor s/ papel
 Coleção Maxime Dautresme, Hong Kong - Foto: Simone Catto

Cícero Dias - 'Mulher sentada com espelho' (1944) - óleo s/ tela - Coleção Cnateaubriand,
Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro - Foto: Simone Catto

Cícero Dias - 'Maternidade' (1944) - óleo s/ tela - coleção particular - Foto: Simone Catto

Cícero Dias - 'Sala de Música' (década de 40) - óleo s/ tela - coleção particular - Foto: Simone Catto

Nas tela abaixo, Cícero já rompe totalmente com o figurativismo, e a guerra nem havia acabado. Segundo informações da exposição, ele é o primeiro artista brasileiro a trabalhar com a vertente abstrata.

Cícero Dias - 'Multiplicidade' (1944) - óleo s/ placa de madeira aglomerada - Coleção Maxime Dautresme, Hong Kong
Foto: Simone Catto

Quando Cícero retornou a Paris, no fim da guerra, a abstração foi tomando cada vez mais conta de seu trabalho. Mas isso é assunto para o próximo post!   

Clique aqui para conferir a primeira fase de Cícero Dias na exposição do CCBB.

E aqui, confira a última fase do artista em Paris!


Cícero e Raymonde no ateliê em Villa d'Alesia, Paris, 1946

Visite: 'CÍCERO DIAS – UM PERCURSO POÉTICO 1907-2003' - Centro Cultural Banco do Brasil – R. Álvares Penteado, 112 – Centro – São Paulo. Tel.: (11) 3113-3671/3652 - de quarta a segunda, das 9h às 21h. Entrada franca. Até 3/7.