quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Eliseu Visconti, o mestre que batizou o Impressionismo e o Art Nouveau nos trópicos.

Há 150 anos ele nasceu. Italiano de berço, ainda criança veio para o Brasil e fazia questão de se dizer brasileiro. Logo revelou um talento incomum para o desenho e foi estudar pintura com grandes artistas aqui e na França, conquistando prêmios e glórias. Estou falando de Eliseu Visconti (1866-1944), o primeiro pintor impressionista do Brasil e introdutor do estilo Art Nouveau no país. Verdadeiro mestre da luz, Visconti conseguiu, em suas pinceladas, capturar o ar, as pessoas, as paisagens e atmosferas com uma delicadeza e beleza que não ficam nada a dever às obras dos maiores do mundo. O tipo de arte que faz falta hoje por aqui.

Eliseu Visconti - 'Autorretrato' (1942) - óleo s/ madeira - 46 X 33 cm - coleção particular - SP
 Foto: Simone Catto

Além de ser dotado de um talento excepcional, Visconti teve como professores gente do calibre de Victor Meireles, Rodolfo Amoedo e Zeferino da Costa, entre outros, e foi estudar em Paris a partir de 1893, após ganhar uma bolsa de estudos de cinco anos da Escola Nacional de Belas Artes. Lá frequentou a Academia Julian e os ateliês de Bouguereau e Gabriel Ferrier, além de ser admitido na École Nationale et Spéciale de Beaux-Arts classificado em sétimo lugar. Porém, o conservadorismo dessa última escola assustou o jovem artista, que abandonou o curso para estudar na École Guérin com Eugène Grasset, um dos expoentes do Art Nouveau. Visconti participou de vários Salões de arte e teve sua estada na França prorrogada por dois anos, só retornando ao Brasil em 1900, após conquistar uma medalha de prata na Exposição Universal de Paris. Um currículo e tanto.

Por tudo isso, é inadmissível que tantos críticos e historiadores só tenham dedicado espaço à arte produzida a partir da Semana de Arte Moderna de 1922, como se a arte brasileira anterior à década de 20 fosse anacrônica ou apenas uma imitação da arte europeia. Mais do que uma injustiça, isso denota displicência e desconhecimento. Felizmente, Visconti alcançou grande êxito em vida, conseguiu viver de sua arte e, décadas após sua morte, continua encantando a todos com a beleza e qualidade de sua obra.

Há quatro anos, visitei uma exposição de Visconti que me impressionou de maneira muito vívida. Grandiosa e muito bem montada, essa exposição fez jus ao talento do mestre e foi valorizada por uma localização à altura, a Pinacoteca do Estado. Agora, a Galeria Almeida & Dale acaba de realizar uma mostra com 40 obras de Visconti, algumas inéditas e outras há anos longe dos olhos do mundo. Com a colaboração do Projeto Eliseu Visconti, comandado por Tobias Stourdzé Visconti, neto do artista, a curadoria mesclou obras de diferentes épocas, incluindo trabalhos de design que ele desenvolveu para algumas instituições.

Influenciado pelo Impressionismo, pelo Simbolismo, Pós-Impressionismo e também pelo Art Nouveau de seu mestre Grasset, Visconti manejou a cor e a luz como poucos no Brasil. Antes mesmo de sua viagem a Paris, já havia pintado paisagens ao ar livre abolindo as gradações sutis de cor e criando contrastes de luz tropical que, possivelmente, teriam chocado a Academia. É o caso de 'Uma rua de favela' (c.1890), primeira obra do artista a abordar essa temática.

Eliseu Visconti - 'Uma rua da favela' (c.1890) - óleo s/ tela
72 X 41 cm - Coleção Afrísio Vieira Lima Filho - Brasília - DF
 Foto: Projeto Eliseu Visconti

Em seu primeiro período em Paris, Visconti criou a maior parte de seus nus, nos quais podemos reconhecer a forte influência simbolista na luz diáfana, na atmosfera misteriosa e numa certa melancolia nas poses das modelos.

Eliseu Visconti - 'Nu feminino' (1894) - óleo s/ tela - 59,5 X 81 cm - coleção particular - SP
Foto: Projeto Eliseu Visconti

Eliseu Visconti - 'Busto de Mulher' (1895) - óleo s/ tela - 49 X 73 cm - Coleção Fundação Edson Queiroz Fortaleza-CE - Foto: Projeto Eliseu Visconti 

Eliseu Visconti - 'Mulher e flor - Estudo para Sonho Místico' (1897) - óleo s/ tela
39 X 31 cm - coleção particular - SP - Foto: Projeto Eliseu Visconti

Não faltaram, também, obras que retratam a infância, um tema que sempre foi caro ao artista. É o caso de 'O beijo' (c.1899), por exemplo, que mostra toda a ternura e suavidade do beijo de uma mulher na face de uma criança.

Eliseu Visconti - 'O beijo' (c.1899) - óleo s/ tela - 24 X 32,5 cm - coleção particular - SP
 Foto: Projeto Eliseu Visconti

Visconti gostava muito de retratar membros da família porque os amava acima de tudo, conhecia-os muito bem e, assim, sabia captar melhor suas expressões e nuances. Podemos citar aqui a pintura 'Boa noite' (c.1910), na qual a esposa Louise tem o bebê Tobias no colo recebendo um beijo de boa noite da irmãzinha Yvonne.

Eliseu Visconti - 'Boa noite' (c.1910) - óleo s/ tela - 60 X 76 cm - coleção particular - RJ
Foto: Projeto Eliseu Visconti

Na França, o artista pintou belas paisagens do Jardim do Luxemburgo. Numa delas, nosso olhar é dirigido para duas figuras de negro, um homem lendo jornal apoiado numa balaustrada e um menino a seu lado. Ambos contrastam vivamente com a parte inferior mais clara e com a porção superior da tela, que exibe uma vegetação de exuberante tom escarlate típico do outono parisiense.

Eliseu Visconti - 'Jardim do Luxemburgo' (c.1905) - óleo s/ tela - 33 X 41,5 cm - coleção particular - RJ Foto: Simone Catto

Na pintura abaixo, uma mulher tricota também no famoso jardim de Paris e notamos o contraste vivo entre a luz do sol refletida no solo e a sombra escura que a envolve.

Eliseu Visconti - 'Tricoteuse' (1905) - óleo s/ tela - 3- X 46 cm - Coleção Hecilda e Sérgio Fadel - RJ
Foto: Simone Catto

Segundo o Projeto Eliseu Visconti, a obra a seguir, 'Moça no trigal' (c.1916), é a mais reproduzida do artista, mas há mais de 40 anos não era exibida numa exposição.

Eliseu Visconti - 'Moça no trigal (Pão e flores)' (c.1916) - óleo s/ tela - 65 X 80 cm - coleção particular - SP
Foto: Projeto Eliseu Visconti

Uma outra pintura que há décadas estava longe dos olhos do público é 'Estendendo roupa', de 1922. Criada dois anos após o artista ter-se mudando definitivamente para o Brasil, a pintura mostra uma cena prosaica da rotina doméstica valorizada por um festival de cores quentes que destaca várias gradações de vermelho. Sem dúvida, as roupas não demoraram a secar naquele dia ensolarado!

Eliseu Visconti - 'Estendendo roupa' (1922) - óleo s/ tela - 43 X 66 cm - coleção particular - SP
Foto: Projeto Eliseu Visconti

A pintura abaixo mostra uma paisagem da encosta do Morro de Vila Rica em tons pastéis. Vemos alguns casebres e, em primeiro plano, mal conseguimos visualizar as pessoas, de tão diminutas que são. Essa paisagem nunca havia sido exibida publicamente. Sabia-se de sua existência apenas pelo registro numa foto antiga, mas ela foi localizada durante a elaboração da exposição. Sorte de quem viu!

Eliseu Visconti - 'Vila Rica Copacabana' (1929) - óleo s/ tela - 65 X 80 cm - coleção particular - SP
Foto: catálogo Galeria Almeida & Dale

Visconti tinha uma casa de férias em Teresópolis (RJ), ficava encantado com a luminosidade daquela cidade e não perdia a oportunidade de retratá-la em paisagens como os dois exemplos a seguir. Em 'Raios de sol' (c.1935), vemos a entrada da casa do artista enfeitada por duas fileiras de luxuriantes flores vermelhas que contrastam com os brancos e azuis. Vale ressaltar que, embora o azul seja uma cor fria e predomine no quadro, as flores e os outros toques de vermelho conferem tal calor à composição que o cenário se torna absolutamente acolhedor e irresistível. Sem dúvida, um lugar onde temos vontade de estar!

Eliseu Visconti - 'Raios de sol' (c.1935) - óleo s/ tela - 81 X 62 cm
coleção particular - SC - Foto: Projeto Eliseu Visconti

O jardim do artista também não ficava atrás em beleza, com suas plantações, flores e sombras acolhedoras.

Eliseu Visconti - 'Lição no meu jardim' (c.1930) - óleo s/ tela - 81 X 65 cm
Coleção Fundação Edson queiroz - Fortaleza-CE - Foto: Simone Catto

A exposição exibiu também alguns autorretratos. Sabemos que Visconti pintou mais de quarenta ao longo da vida, e eu gostaria de destacar particularmente um que ele realizou já idoso, denominado 'Ilusões Perdidas' (também conhecido como 'Inspiração' – c.1933). De olhos fechados e com um leve sorriso nos lábios, o artista parece estar numa espécie de transe místico, sorvendo a densa nuvem de "inspiração" que evapora de sua paleta. Quase uma alegoria, essa pintura subverte os cânones tradicionais do autorretrato ao deslocar o retratado do centro do quadro para um canto da tela.

Eliseu Visconti - 'Ilusões Perdidas (Inspiração)' (1933) - óleo s/ tela
160 X 100 cm - coleção particular - CE - Foto: Projeto Eliseu Visconti

E finalmente, temos belas peças de arte decorativa Art Nouveau, incluindo cartazes, vasos, moringas, selos, vitrais e até estampas para tecidos.

Eliseu Visconti - 'O beijo da Glória a Santos Dumont' (c.1901) - litografia a cores s/ papel
52 X 36,4 cm - Coleção Tobias S. Cavalcanti - Rio de Janeiro
Foto: catálogo Galeria Almeida & Dale

Eliseu Visconti - Moringa decorada com perfil e flores (1909) - cerâmica pintada
28 X 18 cm - executada para a inauguração do Teatro Municipal do Rio de Janeiro -
Coleção Tobias S. Visconti - Rio de Janeiro - Foto: catálogo Galeria Almeida & Dale

Mais do que um artista eclético e fora de série, Eliseu Visconti é reconhecido como um de nossos maiores mestres da arte graças ao louvável trabalho do Projeto Eliseu Visconti para resgatar e catalogar sua obra, além de iniciativas como essa exposição.


quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

A 32ª Bienal deixa uma grande "incerteza viva": o que é arte hoje?

O ano está quase acabando, e lá se foi mais uma Bienal de São Paulo. O que não se foi, e insiste teimosamente em ficar, é a sensação de que sobrou intenção e faltou arte no Ibirapuera. E devo dizer que esse sentimento, infelizmente, parece se agravar a cada nova edição daquela que é considerada a mais importante e abrangente exposição de arte realizada no Brasil.

Escolhi um dia tranquilo para visitar a mostra, uma tarde de quarta-feira abafada e chuvosa, a fim de evitar as multidões e poder apreciar as obras com calma. Aliás, soube que o número de visitantes este ano ultrapassou os 900 mil, uma cifra bem superior àquelas das últimas edições do evento. Denominada 'Incerteza Viva', essa 32ª Bienal tinha, como propósito, refletir sobre questões que atualmente polarizam discussões em todo o mundo, tais como o aquecimento global, a destruição das florestas, desigualdade de gênero, discriminação racial, crise econômica, migração e outras mazelas contemporâneas. A ideia era que as obras de arte suscitassem mais questionamentos do que respostas, posicionando-se como expressões de resistência. É aí que está o problema. Até que ponto uma obra pode ser considerada "arte" ou não passa de mera expressão de uma subjetividade? Será que toda forma de resistência ou protesto, por assim dizer, pode ser denominada arte pelo simples fato de estar materializada na forma de uma pintura, ou de um desenho, vídeo, escultura, instalação ou o que quer que seja? Se uma pessoa que se diz artista cria uma obra e diz que ela é arte, devemos necessariamente acreditar que seja mesmo? Não é a primeira vez que proponho este tipo de questionamento neste blog. Sei que a indagação é polêmica, mas sei também que estou longe de ser a única a fazê-la. Se existe uma "incerteza viva", portanto, creio que ela resida sobretudo nos próprios limites que definem o que é arte atualmente.

Está certo que a percepção da arte contemporânea não ocorre da mesma forma para todo mundo. Cada vez mais, a arte torna-se uma questão subjetiva e as fronteiras entre o que pode ou não ser considerado obra de arte tornam-se tão fluidas quanto a diversidade de repertórios e experiências de quem a vivencia. Quem garante que aquilo que é arte para mim seja considerado arte para outra pessoa? E vice-versa? Estou relatando, aqui, uma experiência que no meu caso foi frustrante, mas que pode não tê-lo sido para outros.

Vista da 32a Bienal: incerteza sobre os próprios limites da arte - Foto: Simone Catto

Achei louvável a iniciativa da curadoria de realizar atividades paralelas para integrar o público e inseri-lo no contexto desejado, ocupando inclusive espaços externos ao prédio da Bienal, mas o que questiono, novamente, é a força e a qualidade dos trabalhos em torno dos quais esse público foi inserido. Outra questão: será que os visitantes realmente captaram o propósito das obras interativas ou as encararam como mero entretenimento? Digo isso porque os textos descritivos de várias obras diziam muito, mas não explicavam quase nada. Sem falar que a semelhança de "propósitos" relatados nos textos de alguns trabalhos era tão grande, que um determinado texto podia muito bem se aplicar a uma obra diferente daquela à qual se referia – é sério! Creio que isso tenha ocorrido devido ao excesso de elasticidade do tema da Bienal - um tema que podia, teoricamente, abarcar todo e qualquer debate, numa espécie de balaio de gatos ideológico.

Entre mortos e feridos, no entanto, devo fazer justiça a algumas obras que me impactaram de alguma maneira por seu resultado estético e eu não poderia deixar de mencioná-las aqui, com o devido mérito a seus criadores.

Gostaria de destacar o conjunto de painéis festivos e multicoloridos realizados em 2016 pela jamaicana Ebony G. Patterson (nascida em 1981), com composições que mesclam elementos da cultura popular e imagens de violência relacionadas às comunidades de Kingston, em seu país. Patterson utilizou fotografias e colagens recobertas por tecidos e ornamentos os mais variados, criando imagens que expressam alegria e brilho, apesar de conterem cenas de opressão social nas quais não faltam crianças negras, bonecas, bijuterias, contas coloridas e imagens de animaizinhos que parecem recortados de livros infantis, entre outros itens. Se o objetivo era realizar uma crítica social, a artista conseguiu alcançá-lo com arte e qualidade, produzindo uma obra que cumpre sua função sem deixar de fazer bem aos olhos. É a prova de que é possível falar de coisas feias sem que seja preciso, para isso, abrir mão da beleza.

Os coloridos e festivos painéis de Ebony G. Patterson - Foto: Simone Catto

Detalhe de um painel de E. G. Patterson - Foto: Simone Catto

E. G. Patterson: cor e exuberância a serviço da denúncia social
Foto: Simone Catto

Colorido meticuloso: fiquei encantada com o trabalho!
Foto: Simone Catto

E não é que minha bolsa poderia fazer parte do painel?!? (rs)
Foto: Simone Catto

Na série 'Rota do Tabaco' (2016), o brasiliense Dalton Paula (nascido em 1982) utilizou, como plataforma, um conjunto de alguidares, pratos de cerâmica que recebem comida e também oferendas em rituais de religiões afro-brasileiras. O artista pintou, no interior dos pratos, personagens que remetem ao passado colonial e aos escravos, notadamente aqueles que trabalharam em três locais que compõem a "rota do tabaco": Piracanjuba, em Goiás; Cachoeira, no Recôncavo Baiano; e Havana, em Cuba. Paula viajou a essas três cidades para pesquisar a herança histórica relacionada a essa cultura agrícola e realizou um trabalho com resultado estético bem interessante.

Dalton Paula - um dos alguidares da série 'Rota do Tabaco' (2016) - Foto: Simone Catto

Dalton Paula - 'Rota do Tabaco' (2016) - Foto: Simone Catto

Chamou minha atenção, também, uma série de fotografias da brasiliense Bárbara Wagner (nascida em 1981), que vive em Recife. Intitulada 'Mestres de Cerimônias' (2016), a série retrata a cena da música brega na periferia da capital pernambucana e escancara, com crueza, a base de pobreza econômica e cultural sobre a qual ela se sustenta. Verdadeiros documentos antropológicos, as fotos registram a realização de videoclipes bregas e seus personagens, dos quais não escapam os MCs, DJs, bailarinos, produtores, empresários e também o público. O que mais grita nessas fotos é o contraste entre a autoestima estratosférica de seus personagens e sua aparente alienação em relação à precariedade sociocultural do meio onde estão mergulhados.

Os 'Mestres de Cerimônias' (2016), de Bárbara Wagner: egos inflados e alienados - Foto: Simone Catto

Foto da série 'Mestres de Cerimônias' (2016), de Bárbara Wagner (2016), que poderia muito bem ter como legenda:
"Não tenho esgoto, mas tenho pernão!"' Triste. - Foto: Simone Catto

Mais uma foto da série 'Mestres de Cerimônias' (2016), de Bárbara Wagner - Foto: Simone Catto

Em minhas conversas e leituras, percebi que muita gente se decepcionou com essa Bienal, algumas pessoas a apreciaram, mas, independentemente da opinião de cada um, creio que é sempre saudável lembrarmos de uma lição: não devemos acreditar em tudo o que vemos, lemos ou ouvimos. E isso se aplica também à arte.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

O Teatro Municipal e os meninos de camiseta cor de sol.

No domingo passado, fui assistir a um concerto no Teatro Municipal às onze da manhã. OK, não é tão cedo, mas convenhamos que poucos brasileiros saem da cama antes das nove da manhã de um domingo preguiçoso para assistir a um concerto. O mérito foi todo de George Gershwin, talvez o compositor americano "mezzo erudito, mezzo popular" mais famoso do finado século XX. Naquela manhã, a Orquestra Experimental de Repertório (OER), com mais de 80 músicos e regência do maestro Carlos Moreno, iria interpretar o lindo Concerto em Fá maior para piano e orquestra do compositor, com solo do pianista Rogério Zaghi. E Gershwin é sempre irresistível, até mesmo num domingo de manhã.

O repertório também incluiu, entre outras peças, o belo prelúdio Alvorada da ópera Lo Schiavo (O Escravo), de nosso Antônio Carlos Gomes. Para quem não sabe, a famosa "cornetinha" tocada para anunciar o início dos concertos na sala São Paulo é um solo de trompete extraído dessa abertura.

Com ingressos por apenas cinco reais e R$ 2,50 a meia entrada, aquele concerto foi uma ótima oportunidade para quem nunca havia visitado o Teatro Municipal conhecer, de dentro, essa que é uma das obras históricas e arquitetônicas mais belas de São Paulo.

A arquitetura do teatro centenário tem estilo eclético e nos remete a uma São Paulo infinitamente mais bonita e cultivada - Foto: Simone Catto

Detalhe de janela com lindos vitrais - Foto: Simone Catto

Ao chegar às escadarias, topei com um enorme e ruidoso grupo de adolescentes vestindo camisetas iguais de um laranja bem vivo. Pelo perfil, uniforme e idade dos jovens, deduzi que se tratasse de alunos de escolas públicas reunidos para o passeio. O saguão do teatro ficou lotado com um festival de selfies. Alguns tiravam fotos tendo as belas esculturas ao fundo. Outros saíam para o terraço do terceiro andar, tirando fotos com vista para a rua. E postavam-se também à frente dos espelhos, dos frisos dourados, fotografavam a pintura do teto. Todos estavam excitados e maravilhados com aquela suntuosidade toda, o tipo de cenário que provavelmente conheciam apenas pelas telas da TV ou pela Internet.

Das escadarias, avistamos as coloridas janelas do café administrado
pelo restaurante Santinho, o mesmo do Instituto Tomie Ohtake.
Foto: Simone Catto

A pintura do teto também encantou os meninos de laranja - Foto: Simone Catto

E esse detalhe encantou a mim! - Foto: Simone Catto

O dourado que deslumbrou os jovens... - Foto: Simone Catto

Quando o concerto começou, notei que metade da plateia, onde estavam os melhores lugares, havia ficado vazia, e que outros bons lugares também haviam ficado desocupados. Achei um absurdo, pois, ao comprar os ingressos, aqueles lugares não estavam mais disponíveis e tive de me contentar com o Balcão Simples lateral, que possibilita uma visão apenas parcial da orquestra. Ocorre que os melhores lugares são reservados para os patrocinadores, estes não comparecem aos espetáculos e esses lugares ficam desocupados, o que acaba se tornando um desrespeito com os espectadores que, assim como eu, não conseguiram posições melhores. O teatro deveria estipular um horário máximo para entrada na sala de espetáculo e, findo esse horário, as pessoas que lá estão deveriam ter o direito de ser remanejadas para ocupar os bons lugares ociosos. Os meninos de camiseta laranja poderiam estar sentados lá na frente, por exemplo.

Outra falha é que não havia programa disponível para as pessoas saberem o que estavam ouvindo. Algo inadmissível, em se tratado do Teatro Municipal da cidade mais importante da América Latina. Infelizmente, aqui no Brasil, nunca podemos esperar grande coisa das instituições que são geridas pelo poder público. Até mesmo em São Paulo.

A visão do Balcão Simples onde eu estava é bastante prejudicada, enquanto que boa parte dos lugares da plateia central permaneceu exatamente assim: vazia - Foto: Simone Catto

Devo dizer que, desde o início do concerto, os jovens uniformizados de laranja eram os espectadores mais atentos e educados da plateia. Não falavam, prestavam atenção na orquestra e pareciam hipnotizados com o solo de piano do concerto de Gershwin. Isso me deixou feliz. Certamente, aquela era uma experiência tão distante do dia a dia e da realidade de cada um, que me pergunto qual efeito ela deve ter exercido sobre as mentes e espíritos daqueles meninos e meninas. Faço votos que o nome do prelúdio de Carlos Gomes, "Alvorada", simbolicamente represente o alvorecer de uma nova consciência do belo e da arte para aqueles jovens com camisetas cor de sol. Espero, francamente, que aquelas duas horas em que eles permaneceram NAQUELE ambiente, ouvindo AQUELA música, tenham marcado indelevelmente seus corações e despertado em suas mentes uma centelha de desejo pelo fazer ou fruir artístico. Ou, pelo menos, que tenham alertado seus nervos mais sensíveis de que existe um mundo melhor, com boa música, boa arquitetura e beleza construída pelos homens. Homens que um dia eles poderão vir a ser, beleza que um dia eles também poderão construir.

domingo, 21 de agosto de 2016

Teatros lotados, peças vazias: quando a estrela é o marketing.

Ultimamente não tenho tido muita sorte com peças de teatro. Assisti a umas quatro recentemente e devo dizer que nenhuma me fez vibrar de emoção ou pular de alegria. Duas delas, que já saíram de cartaz e foram encenadas em teatros respeitáveis, não eram propriamente ruins, mas também não empolgaram minhas endorfinas. As outras duas apenas me deram a certeza de que um bom trabalho de marketing ou assessoria de imprensa faz toda a diferença, inclusive quando a montagem não é boa.

É neste segundo caso que classifico Histeria, comédia dirigida por Jô Soares que esteve em cartaz no Teatro Tuca. Guiando-me pela crítica dita "especializada", tentei, ao lado de alguns amigos, comprar ingressos para assistir ao espetáculo num determinado sábado, mas estava tudo esgotado e só conseguimos comprar para o sábado seguinte. Mesmo assim, nossos lugares ficavam na décima quarta fileira. Para quem não sabe, Histeria é uma comédia escrita pelo britânico Terry Johnson, em 1993, que aborda um relacionamento hipotético entre Sigmund Freud, o pai da psicanálise, e o pintor surrealista Salvador Dali. Sabemos que os dois homens realmente se encontraram no ano de 1938, pouco antes da morte de Freud, quando o pintor foi visitá-lo em Londres, cidade para a qual o médico se refugiara fugindo à perseguição nazista aos judeus. Porém, não sabemos o que conversaram. A ideia de associar o pai da psicanálise a um pintor surrealista numa interação imaginária inspirada nesse encontro naturalmente foi interessante, já que Freud descobriu o recurso da interpretação dos sonhos para a cura psíquica e as imagens oníricas estão no cerne da produção surrealista de Dali. Soube que a peça teve boa receptividade em Londres e Paris, sendo que nesta cidade foi dirigida por ninguém menos que John Malkovitch, em 2002. Por esta razão, quando fui ao teatro assistir à adaptação brasileira, esperava um texto brilhante, diálogos inteligentes e tiradas criativas, mas confesso que me decepcionei um bocado. Achei o roteiro fraco, o texto quase não me fez rir e não me impressionou em absoluto. Não conheço o roteiro original e pergunto-me se o erro estava na adaptação de Jô Soares. Só sei que o problema, definitivamente, não estava na produção, que era ótima, e muito menos no elenco, que incluiu atores do naipe de Cássio Scapin, interpretando Salvador Dali, e Pedro Paulo Rangel, no papel de Freud. Esses dois honraram seus personagens como sempre fazem. Porém, em minha opinião, as boas atuações do elenco não foram suficientes para segurar o espetáculo.

Acho desalentador o fato de que deve haver peças muito boas por aí que amargam plateias vazias por não serem vistas pela crítica especializada e, por isso, sequer recebem avaliação nos guias de entretenimento dos jornais e revistas. Outras montagens, por sua vez, nem são tão boas assim – isso quando não são francamente ruins -, porém ostentam nomes globais no elenco e/ou direção, recebem farto patrocínio, são encenadas em bons teatros e divulgadas com estardalhaço, atraindo hordas de espectadores e lotando as salas.

Semana passada, por exemplo, fui ver O Impecável, stand-up de Luiz Fernando Guimarães que acaba de estrear no Teatro Gazeta. Quis assistir à peça porque tinha como referência o excelente humor desse ator que conheço desde os tempos da lendária TV Pirata e da série Os Normais, entre outras produções. O fato é que sempre gostei de Luiz Fernando Guimarães e, apostando nele, fui conferir a montagem em que interpreta diferentes personagens num salão de beleza de Copacabana. Esperei encontrar algo com a qualidade de Cada um com seus pobrema, o hilário stand-up no qual Marcelo Medici encarnou personagens impagáveis, ou da altura do Terça Insana, que fez história com uma divertidíssima Grace Gianoukas interpretando tipos amalucados e inesquecíveis. O que encontrei, no entanto, foi um roteiro ralo, piadas sem graça, uma produção pífia e um Luiz Fernando Guimarães bem diferente daquele que já me fez rir. Achei as caracterizações fracas, não há troca de figurinos – ao contrário dos excelentes stand-ups que mencionei anteriormente - e, por vezes, a dicção do humorista era ininteligível. Ele tem dado entrevistas e divulgado o espetáculo na mídia, mas, em minha opinião, os R$ 90,00 que paguei para assistir não justificam nem de longe o resultado.

Saudades de Barbara Heliodora, a crítica teatral que fazia os encenadores tremerem nas bases, mas que tanta luz jogou sobre nossos palcos. Espero que os jornais paulistas coloquem a mão no bolso e invistam em críticos verdadeiramente especializados para assistir e avaliar mais peças em cartaz, a fim de que o público possa receber melhor orientação em suas escolhas. Se já fazem isso razoavelmente com o cinema, por que não fazerem também com o teatro? Existem dezenas de produções, por aí, à espera de uma avaliação. Enquanto isso não acontece, acho mais prudente esperar o "boca a boca", isto é, a indicação de algum amigo, para selecionar a próxima peça a que vou assistir. Até porque teatro custa caro e meu tempo livre não tem preço.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Por que as redes sociais estão mudando o mercado de arte.

Fonte: Gotham Magazine – 28/6/2016 | Tradução e adaptação: Simone Catto

O mercado de arte norte-americano é o maior do mundo e está a anos-luz à frente do brasileiro, mas essa matéria aponta para uma tendência que, mais dia, menos dia, vai chegar aqui também: cada vez mais gente está comprando obras de arte on-line. Nos Estados Unidos, as mídias sociais e plataformas alternativas de venda de arte estão rompendo o modelo tradicional das galerias de arte no século XXI. Como as vendas de arte contemporânea atingiram a estratosfera por lá, as formas de comprar e vender obras de arte também se multiplicaram naquele país. Em outras palavras: a relação tradicional artista-galeria, na qual a galeria lentamente trabalha para desenvolver a carreira do artista, está mudando: os artistas estão interagindo com o público via mídias sociais e, muitas vezes, trocando as galerias pelos leilões.

Um, dois, três...

Em 2008, Damien Hirst fez hordas de inimigos entre os marchands quando esnobou as galerias com as quais trabalhava (Gagosian, em Nova Yorque, e White Cube, em Londres) e dirigiu-se à casa de leilões Sotheby's de Londres para vender diretamente a obra Beautiful Inside My Head Forever. "Mesmo que a venda fracasse, estarei abrindo uma nova porta para os artistas de todos os lugares", afirmou o artista/empreendedor aos repórteres à época. Em menos de 24 horas, 223 trabalhos foram vendidos e atingiram mais de 200 milhões de dólares, um recorde para um leilão de um único artista. Os galeristas se prepararam para um verdadeiro tsunami, mas, desde então, não houve outro blockbuster como aquele nas vendas diretas em leilões. E Hirst, que havia abandonado a Gagosian há alguns anos, retornou à galeria com grande festa na primavera deste ano.

Damien Hirst - 'Beautiful Inside My Head Forever' - 2008
Insta Vendas

Artistas cujas obras alcançam preços mais realistas do que as de Hirst estão vendendo cada vez mais nos leilões pela Internet. Apesar da retração do mercado global de arte em 2015, o mercado de arte on-line cresceu 24% para 3,27 bilhões de dólares, de acordo com um relatório que acabou de ser divulgado pela seguradora Hiscox, especialista nesse segmento. "Dispositivos móveis estão se tornando nossa arma preferida", afirma Robert Read, diretor de Artes Plásticas da Hiscox, "e as mídias sociais estão nos convencendo cada vez mais de que 'a roupa nova do imperador' é realmente magnífica." Enquanto a maior parte da arte vendida pela Internet custa menos de 7.250 dólares, quase um quarto das vendas variou entre 7.250 até 72.500 dólares ou mais.

Stuart Semple e outros artistas jovens, tais como Ryan McGinley, José Parlá e Daniel Arsham, residentes em Nova York, estão usando plataformas de mídias sociais como o Instagram para exibir e distribuir algumas de suas obras – e os marchands e galerias estão percebendo isso. "Estou espantado com a quantidade de trabalhos que estamos vendendo direto do ateliê por meio do Snapchat", diz Semple. "Antes um artista não tinha o poder de conversar diretamente com o espectador. Creio que um artista poderia sobreviver muito bem somente com as mídias sociais."

Instagram e Facebook são as plataformas preferidas nos Estados Unidos, sendo que quase a metade dos compradores online usou o Instagram em 2016 por causa da arte. No ano passado, mais de 80% de todos os compradores de arte da Geração Y compraram obras de arte on-line. Mesmo assim, diz Semple, "o espaço físico de uma galeria ainda é importante. Tudo isso vai junto... exposições podem ter um elemento digital e vice-versa."

Daniel Arsham - obra pertencente à Baró Galeria, São Paulo, exposta na SP-Arte 2014 - Foto: Simone Catto

A arte como ativo

A Artist Pension Trust, empresa fundada em 2004 por Moti Shniberg, permite aos artistas criar um fundo de aposentadoria usando suas próprias obras de arte como ativos. Os participantes doam 20 obras ao longo de um período de 20 anos e, gradualmente, elas vão sendo comercializadas: 40% dos lucros vão para o autor da obra e o restante é dividido entre os artistas-membros e a empresa.

Com cerca de dois mil artistas e 14.000 trabalhos, a APT "oferece uma segurança financeira que as galerias não podem proporcionar", afirma o diretor Ayal Brenner. "Nós oferecemos valor agregado e exposição global". No ano passado, a ATP fez suas primeiras vendas, a maioria a museus, de obras com custo médio de 30 mil dólares e uma valorização de 18% em relação a seu preço inicial no fundo. Em março, a APT fez sua primeira distribuição de lucros. "Estamos segurando as obras mais valiosas", diz Brenner, "até que o sistema de vendas esteja funcionando perfeitamente". Ele não conhece concorrentes – neste ponto, diz, a APT detém o topo do mercado. Só o tempo, porém, poderá dizer se as obras de arte trarão lucros para os artistas e a empresa.

De tudo isso, concluímos que realmente não dá para os artistas desprezarem a venda de obras de arte on-line, seja por meio de leilões, galerias virtuais ou sites pessoais criados de forma inteligente e vinculados a redes sociais. Para os artistas desconhecidos, sobretudo, a criação de um site com as ferramentas adequadas de marketing digital, incluindo a inserção de palavras-chave e outros mecanismos que façam com que ele seja facilmente encontrado nas buscas dos internautas, é um recurso de vendas inteligente que não pode – e não deve – ser descartado. Ainda mais no embrionário mercado de arte de um país como o Brasil, que, assolado por uma crise política e econômica sem precedentes, não pode se dar ao luxo de desprezar as ferramentas disponíveis para vender mais arte – on-line ou off-line. O raciocínio é simples: quem aparece tem mais chances de vender. E para aparecer, é preciso fazer bonito também na Internet.

domingo, 31 de julho de 2016

Sweet Café. Doces momentos para compartilhar com quem merece.

Sempre digo que São Paulo, com todo o seu gigantismo, tem um enorme deficit de bons endereços onde a gente possa escolher uma mesa, sentar e esquecer da vida diante de uma boa xícara de café. O Sweet Café, aberto há poucos meses em Cerqueira César, é uma doce e mais do que bem-vinda exceção a essa incoerência.

O terraço já é convidativo... - Foto: Sweet Café

Fui lá conferir e tive uma experiência agradável em todos os sentidos. A começar pela decoração da casa, em tons de roxo e dourado, aquecida pelo toque aconchegante da madeira nas mesas e paredes. O capricho está em detalhes como a delicada louça utilizada e a apresentação dos quitutes, destacando os doces que são o carro-chefe do lugar. Muita gente talvez não se importe com isso, mas a ambientação do local faz toda a diferença para mim no momento de uma refeição – seja um almoço, jantar ou simples café. Quando saio para comer em São Paulo, faço questão de lugares que demonstrem um mínimo de apuro estético e cuidado. Fujo como o diabo da cruz de ambientes com luz branca fluorescente, por exemplo, que para mim representam o próprio cenário do Apocalipse! (rs).

O ambiente da casa é acolhedor - Foto: Sweet Café

Sentei nessa mesa, lá no cantinho, de frente para a rua - Foto: Gastrolândia

Foto: Simone Catto

Bem vistosos, os doces realmente são do tipo que a gente começa a comer com os olhos e tem vontade de experimentar todos. Como isso não era possível para meu estômago tamanho 38, optei pelo éclair de pistache com blueberry e saboreei cada pedacinho de minha escolha. Dentre as mais de dez opções de cafés oferecidas, escolhi, para acompanhar meu doce, o Sweet Brown, que leva especiarias e amêndoas. Um casamento feliz que comemorei por horas!

O éclair de pistache com blueberry desceu suave e saboroso! (R$ 8) - Foto: Simone Catto

O café Sweet Brown (R$ 8) revelou-se o parceiro perfeito para o doce - Foto: Simone Catto

Foi difícil foi escolher entre tantas delícias! - Foto: Simone Catto

O outro pedido da mesa foi o cheesecake de tapioca, que também tinha uma aparência maravilhosa. Não experimentei, mas a formiga que me acompanhava garantiu que também é muito bom! (rs).

O cheesecake de tapioca saiu bem na foto - Foto: Simone Catto

Apesar do nome em inglês, a casa sem dúvida tem alma francesa. Os macarrons não me deixam mentir!
Foto: Simone Catto

Um diferencial do Sweet Café é que, além dos doces e cafés variados, há também diversas opções para o café da manhã, tais como tapiocas, bagels e croissant de chocolate (todos a R$ 12), além de pão de queijo (R$ 4), entre outros itens apetitosos para o desjejum.

Se a ideia for comer um lanche caprichado, dois clássicos franceses, o Croque Monsieur e o Croque Madame (R$ 19 e R$ 21, respectivamente), não deixam ninguém a ver navios. E para a hora do almoço há meia dúzia de pratos com preços honestos, como a quiche com salada (R$ 25), além de ovos com diferentes preparos.

Croque Madame - Foto: Gastrolândia

Os prazeres etílicos também não são esquecidos! A casa tem uma interessante carta de drinks com mais de trinta itens, como o Aperol Spritz (R$ 19), o Dry Martini (R$ 22), destilados e licores, além de vinhos com várias opções em taça. 

Enfim, o SWEET CAFÉ é um desses lugares que merecem no mínimo uma segunda visita e pretendo fazer isso muito em breve! Quer conhecer? Vá lá: Rua Cristiano Viana, 72 – Cerqueira César. Tel.: (11) 2925-2655. Abre de terça a sexta das 10h às 19h; sábado e domingo das 9h às 18h.

sábado, 23 de julho de 2016

'Um Belo Verão', cinema que aquece o inverno de Sampa.

O ano é 1971. Delphine é uma jovem que mora no campo e tem uma rotina pesada. Acorda cedo para ajudar os pais agricultores, dirige tratores, ara, planta, colhe, cuida da terra. Delphine é gay e, após sofrer uma desilusão amorosa com uma garota com a qual mantinha um relacionamento secreto, decide passar uns tempos em Paris. Ao chegar lá, encontra uma cidade efervescente de estudantes e um clima de debate sobre a liberdade sexual e a condição feminina, temas que ocupavam o centro das discussões à época. Delphine acaba fazendo amizade com um grupo feminista e nele conhece Carole, que vive com o jornalista Manuel. Delphine se aproxima cada vez mais de Carole, acaba se apaixonando pela amiga e não tarda a conquistá-la. Esta é a trama de Um Belo Verão, filme exibido no Festival Varilux de Cinema Francês este ano e atualmente em cartaz em São Paulo. Aliás, devo dizer que achei o título em português um tanto simplista e forçado, melhor seria terem mantido a tradução do título original, "A Bela Estação" (La Belle Saison). Coisas de um marketing às avessas.

As feministas faziam barulho, e lá estava Carole (Cécile de France).

De qualquer forma, a história de amor entre as duas moças convence e vai caminhando num crescendo no qual não faltam os esperados conflitos paralelos: o fato de Carole viver com um companheiro compreensivo que a ama e, sobretudo, a diferença de estilos de vida e expectativas entre a jovem oriunda de um ambiente rural e a outra eminentemente urbana. Contudo, Carole realmente ama Delphine e se esforça para o romance dar certo. Quando esta última precisa retornar ao campo devido a um problema de saúde do pai, Carole dá um jeito de ir encontrá-la, passa a viver a rotina da outra e, nesse momento, sentimos as dificuldades de um amor entre duas pessoas de meios sociais e objetivos de vida tão diferentes. A questão do preconceito contra a relação homoafetiva faz-se presente no ambiente rural ultraconservador de Delphine, mas passa ao largo da Paris libertária retratada no filme.   

Carole e Delphine (Izïa Higelin)

Bem feito e bem dirigido por Catherine Corsini, o filme não é excepcional, mas, sem dúvida, trata-se de um bom filme. A fotografia é bonita, até porque as paisagens da França ajudam muito, as atrizes são ótimas e o romance entre as moças é narrado com a dose certa de sensualidade. Há cenas de sexo e nudez, porém sem resvalarem para a vulgaridade. O mais importante, porém, é que existe química entre as atrizes, ao contrário do filme 'Carol', baseado no romance de Patricia Highsmith, que abordou igualmente um romance entre duas mulheres, mas que carecia de calor – em minha opinião, parecia haver uma verdadeira "Sibéria" entre as protagonistas, uma delas interpretada pela magnífica Cate Blanchett.


Obviamente não vou contar o final do filme, até porque, "tout compte fait", como diriam os franceses, vale a pena conferir Um Belo Verão. Portanto, se você ainda não assistiu, corra, porque está em cartaz somente no Caixa Belas Artes, numa única sessão às 16h10. Aproveite o fim de semana e vá conferir!

Ficha técnica parcial

Direção: Catherine Corsini

Elenco: Izïa Higelin (Delphine), Cécile de France (Carole), Benjamin Bellecour (Manuel), Noemi Lvovsky (Monique, mãe de Delphine), Kévin Azaïs (Antoine) e outros.